A Fórmula 1 é uma máquina de construir vilões. E George Russell é o mais novo candidato a entrar para os livros da categoria como o grande vilão da temporada 2026, um papel que Oscar Piastri nem tentou assumir em 2025, já que a McLaren prezou pelo bom relacionamento dentro da equipe.
A questão é que Toto Wolff poderia — e provavelmente vai — se intrometer na relação entre o britânico e Kimi Antonelli após o GP do Canadá, mas não do jeito que conseguia fazer com Valtteri Bottas e Lewis Hamilton. Ali, as cartas já estavam marcadas: Bottas era o escudeiro fiel. E, mesmo que tentasse se revoltar, o nível de Hamilton ainda estava muito acima.
É por isso que as comparações entre a atual dupla da Mercedes e a de 2016, com Hamilton e Nico Rosberg, fazem sentido.

Antonelli é um jovem que finalmente encontrou o seu lugar no grid. As dúvidas sobre seu desempenho no restante da temporada são válidas — ele ainda comete erros de um piloto novato. Porém, já são quatro vitórias. Todas com competência e um pouco de sorte, como no Canadá. Mas em nenhuma delas o italiano se mostrou um piloto acomodado.
Muito pelo contrário. Os traços ainda infantis e a aparência discreta passam a impressão de alguém que está na liderança da Fórmula 1 por acaso. Mas basta observar um pouco mais para entender que Antonelli sabe jogar o jogo: no post de sua vitória, um livro de Ayrton Senna escondido nas fotos. O mesmo que ele trouxe para o GP de São Paulo de 2025 e foi visto lendo no cemitério onde descansa o tricampeão mundial.
Antonelli também está mostrando as garras com rádios mais ousados e comentários ácidos nas entrevistas. Logo após a sprint em Montreal, que teve um momento de embate em que Russell o jogou para fora da pista, Antonelli fez questão de reiterar durante a entrevista pós-corrida: “me jogaram para fora.”
O menino está crescendo na frente do público. E ele tem todos os motivos para endurecer o tom. São quatro vitórias seguidas, um começo de temporada avassalador que exige uma postura à altura. Manter o pé no máximo do acelerador após seu principal rival abandonar a corrida é exatamente o que um futuro campeão faria. E Antonelli fez. Com direito a uma foto icônica, nos braços do heptacampeão Lewis Hamilton e com o apoio do tetracampeão Max Verstappen.

Já Russell não fez um GP do Canadá ruim. Ele seguiu a cartilha e mostrou que realmente domina o Circuito Gilles Villeneuve de olhos fechados. Ninguém consegue assustá-lo quando ele está seguro com o carro e com sua pilotagem. Esse foi o cenário da sprint.
Após duas provas extremamente apáticas, Russell retornou com a faca nos dentes e deixou claro para Antonelli que está disposto a incomodar. Na sprint, o britânico apresentou um de seus melhores lados: aquele capaz de enfrentar tudo e todos, como já fez com Max Verstappen em outros momentos. Venceu com autoridade.
Na corrida principal, ele vinha para mais uma boa vitória. Mas todo piloto precisa de sorte. Ou, nas palavras do próprio Russell: “Parece que os deuses não querem que eu esteja nessa disputa.”

O drama do britânico não é algo novo para os fãs que acompanham a F1 há algum tempo. Em 2024, ele deu uma entrevista digna de documentário criminal para criticar Max Verstappen: “Sempre que algo não sai como ele quer, ele reage com raiva desnecessária e beira a violência.” O momento virou piada para a Red Bull, que relembrou o episódio para “zoar” o abandono de Russell no Canadá.
E, por mais que a frase de Russell em Montreal tenha certa relevância, é importante retornar aos testes pré-temporada de 2026. Desde os primeiros momentos do W17 em pista, já estava claro que ele seria o carro dominante. E, por todo o histórico de Russell — um piloto desenvolvido pela Mercedes para alcançar grandes feitos — ele era o favorito ao título.
Parte da pressão que hoje cerca Russell também foi construída por ele mesmo. Ao ter atuações discretas na China, Japão e Miami, o britânico ajudou a criar um cenário onde qualquer dificuldade, como uma falha no carro, pesa muito mais em sua disputa pelo campeonato.
Ainda é o começo. A Fórmula 1 tem muitas corridas pela frente para que Russell corra atrás do prejuízo. Nada é impossível. Antonelli pode subir alto e cair do pedestal. Ou se manter. Só o tempo dirá.
Mas Russell tem a oportunidade de ser o vilão perfeito em 2026 e entrar para a história da F1. Para isso existem dois caminhos: se tornar o derrotado que caiu atirando, pressionando Antonelli até o fim e transformando cada corrida em um conflito; ou se tornar o vilão que deu a volta por cima e tirou um título aguardado pela Itália há mais de 70 anos.
Seja qual for o caminho escolhido, tanto ele quanto Antonelli não vão abrir mão deste título tão fácil. E Toto Wolff que descubra uma maneira de lidar com os dois. Para o público, está perfeito do jeito que está: com a equipe permitindo a disputa.
QUEM SAIU GANHANDO
Lewis Hamilton foi o grande nome do GP do Canadá. Sua satisfação com o segundo lugar no pódio, seu melhor resultado com a Ferrari, foi contagiante. Ponto positivo também para sua interação com Antonelli, que empolgou e criou um clima de celebração cada vez mais raro no paddock.
O segundo destaque foi Max Verstappen, que travou uma ótima disputa com Hamilton nas voltas finais. A batalha entre os dois trouxe de volta o clima de 2021. Para os fãs, foi um presente. O holandês conquistou o terceiro lugar, marcando o primeiro pódio da Red Bull na temporada.

O terceiro e último destaque foi Franco Colapinto. Em um fim de semana eficiente, o piloto da Alpine garantiu pontos nas duas corridas em Montreal e agora está a apenas cinco tentos de Pierre Gasly.
OUTROS VILÕES DO GP DO CANADÁ
O GP do Canadá não trouxe apenas o início da história de vilão de George Russell, mas também escancarou outros vilões escondidos no grid.
A primeira vilã é a McLaren. A escolha arriscada de largar com pneus intermediários prejudicou o desempenho de Oscar Piastri e Lando Norris, que já não vive um grande início de temporada em 2026. A leitura da McLaren transmitiu a sensação de uma equipe que acreditou que conseguiria ser “esperta” e driblar os adversários. A explicação do chefe, Andrea Stella, de que não houve tempo para mudanças, pouco convenceu.
Para piorar o cenário, Norris, o atual campeão mundial, parece estar esquecendo que é o atual campeão. Na terça-feira (26), o britânico trocou a introdução de seu Instagram para a frase: “Você é um Campeão Mundial — Eu para o espelho nesta manhã”, uma brincadeira comum quando algo está dando errado. Após a repercussão nas redes sociais, ele apagou.

Outra vilã é a Ferrari. Embora o relacionamento com Hamilton esteja melhor, a harmonia entre a equipe e Charles Leclerc parece cada vez mais próxima do limite. O carro não funciona direito e o monegasco parece mais um produto das redes sociais do que um piloto de alto nível — aquele mesmo que chegou à Ferrari em 2019 carregando o apelido de “predestinado.”
Por fim, o azar que resolveu aparecer para cada piloto. Mas talvez ele seja um vilão divertido ao longo da temporada.
