Os carros ficaram maiores, mais largos e mais pesados ao longo das décadas, mas as ruas do Principado praticamente não mudaram. Entenda por que a ultrapassagem continua sendo o maior desafio do GP de Mônaco.
Todos os anos, quando a Fórmula 1 desembarca em Monte Carlo, uma mesma discussão volta à tona: ainda faz sentido correr em um circuito onde ultrapassar é tão difícil?
A pergunta acompanha o Grande Prêmio de Mônaco há décadas, mas ganhou ainda mais força na era moderna da categoria. Enquanto os carros evoluíram em tamanho, potência e complexidade aerodinâmica, as ruas do Principado permaneceram praticamente as mesmas, criando um contraste que ajuda a explicar por que a posição de largada se tornou tão importante.
O resultado é uma corrida única dentro do calendário. Em nenhum outro circuito a classificação exerce tanta influência sobre o resultado final quanto em Mônaco.
Um circuito criado para outra era
Quando o GP de Mônaco realizou sua primeira edição, em 1929, os carros eram muito menores e mais estreitos do que os atuais. Mesmo nas primeiras décadas da Fórmula 1, os monopostos ocupavam muito menos espaço nas ruas do Principado.
Ao longo dos anos, a segurança evoluiu, a tecnologia avançou e os carros cresceram consideravelmente. Hoje, os monopostos da Fórmula 1 possuem dimensões que seriam impensáveis para os pilotos das décadas de 1960, 1970 ou 1980.
O problema é que Monte Carlo não cresceu junto.
As ruas continuam delimitadas pelos mesmos edifícios, pelas mesmas calçadas e pelas mesmas barreiras de proteção que ajudaram a construir a identidade da corrida. Embora pequenas modificações tenham sido realizadas ao longo dos anos, o traçado preserva grande parte de suas características originais.
Centímetros fazem toda a diferença
Em muitos trechos do circuito, simplesmente não existe espaço suficiente para que dois carros disputem uma curva lado a lado sem riscos elevados de contato.
Curvas como Loews, atualmente conhecida como Fairmont Hairpin, já exigem velocidades próximas dos 50 km/h apenas para que os carros consigam completar o contorno. Em outros pontos, como a subida para o Cassino, a chicane após o túnel ou o setor da Piscina, qualquer tentativa de ultrapassagem envolve um nível elevado de risco.
Por isso, a maior parte das posições conquistadas durante o fim de semana acontece antes mesmo da largada. Uma boa volta na classificação frequentemente vale mais do que qualquer estratégia elaborada para a corrida.

Nem o DRS resolveu o problema
A introdução do DRS trouxe um aumento significativo nas ultrapassagens em diversos circuitos da Fórmula 1. Em pistas como Montreal, Spielberg ou Sakhir, o dispositivo transformou completamente a dinâmica das disputas.
Em Mônaco, porém, seu impacto sempre foi limitado. A principal razão é simples: não basta ter velocidade suficiente para ultrapassar. Também é necessário encontrar espaço para posicionar o carro ao lado do adversário.
Mesmo quando um piloto consegue se aproximar utilizando o DRS, as próximas curvas geralmente oferecem poucas oportunidades reais para completar a manobra sem correr riscos excessivos.
Isso ajuda a explicar por que diversas corridas em Monte Carlo são definidas mais pelo gerenciamento do ritmo e pela estratégia do que por disputas diretas na pista.
A classificação virou a corrida dentro da corrida
A dificuldade para ultrapassar transformou o sábado em um dos momentos mais importantes de toda a temporada. Em poucas pistas uma pole position possui tanto valor quanto em Mônaco.
Não é por acaso que algumas das voltas mais memoráveis da história da Fórmula 1 aconteceram justamente nas sessões classificatórias do Principado. Ayrton Senna, Michael Schumacher, Fernando Alonso, Lewis Hamilton e Max Verstappen construíram parte de suas reputações ao desafiar os limites entre os guard rails de Monte Carlo.
Para muitos pilotos, uma volta perfeita em Mônaco representa o maior teste individual de habilidade ao volante.
O fator 2026: o botão de ultrapassagem pode mudar alguma coisa?
Apesar de todas as limitações naturais do circuito de Monte Carlo, existe um elemento novo que pode trazer uma variável inédita para a corrida deste ano.
Com o fim do DRS e a introdução do Manual Override Mode (MOM), conhecido popularmente como botão de ultrapassagem, os pilotos passaram a ter uma nova ferramenta para administrar seus ataques e defesas ao longo da corrida. Diferentemente do sistema anterior, que dependia de zonas específicas de ativação, o novo recurso permite uma utilização estratégica muito mais ampla.
A questão é se essa novidade poderá criar oportunidades de ultrapassagem em pontos onde elas normalmente não existiam.
Em circuitos convencionais, a resposta parece relativamente clara. Já em Mônaco, o desafio é diferente. O problema histórico do Principado nunca foi apenas a diferença de velocidade entre os carros, mas principalmente a falta de espaço físico para concluir uma manobra.
Ainda assim, o uso inteligente da energia extra poderá permitir aproximações mais agressivas nas saídas de curvas lentas, especialmente em pontos como a saída do túnel, a freada da Nouvelle Chicane ou até mesmo na aproximação da Sainte Dévote após a reta principal.
Nos últimos episódios do podcast F1Mania Em Ponto, apresentado diariamente por Carlos Garcia e Gabriel Gavinelli, essa possibilidade tem sido discutida como uma das principais incógnitas para o fim de semana. Afinal, pela primeira vez em muitos anos, Mônaco receberá uma corrida sob um regulamento que altera significativamente a forma como os pilotos administram seus ataques ao longo da prova.
Talvez o resultado final continue sendo uma corrida definida principalmente pela classificação. Mas existe uma curiosidade legítima para entender se o novo sistema poderá criar oportunidades inesperadas em um circuito que sempre foi conhecido justamente pela dificuldade de ultrapassar.
