Vir de São Paulo para Las Vegas é uma viagem longa, afinal, atualmente, nesta época do ano, não há voos diretos conectando o Brasil à Cidade do Pecado. Mas, vir para cá acompanhar o GP de Las Vegas, não foi sacrifício algum.
Se você não me conhece, eu sou Victor D. Berto, editor-chefe do F1MANIA.NET, cubro a Fórmula 1 desde 2002 e o GP de Las Vegas foi a minha quarta etapa ‘in loco’ de 2023. A temporada mal havia começado e decidi que esta seria uma das etapas que cobriria pessoalmente, não só por amar Vegas, mas também porque sabia que aqui seria feita história.
A Fórmula 1 apostou tudo e mais um pouco ao decidir colocar a maior cidade de entretenimento do mundo em seu calendário e não só isso, esta é a única etapa que a própria categoria organiza, então a aposta foi ainda maior.
Logo de cara era sabido que haveria grandes desafios para uma corrida ser realizada na cidade, na cidade mesmo, porque ao invés de utilizar um autódromo, como o Las Vegas Motor Speedway, a Liberty Media decidiu fazer a corrida na Strip – principal avenida da cidade, onde se localiza a grande zona hoteleira (e os cassinos).
Da decisão de correr pela Strip veio boa parte do dinheiro de patrocinadores. Todas as grandes redes de cassinos patrocinaram a primeira edição do GP de Las Vegas, entre elas Caesars, MGM, Wynn, The Venetian e Hard Rock The Mirage.
E a Strip dá para se comparar a Times Square em Nova York, pela sua importância pela cidade sim, mas, principalmente, pelas luzes. Leds e neons estão por todos os lados, exagerados e cafonas, como é Vegas – a cidade do absurdo, tão absurdo que é muito divertido. Então correr por ela proporciona belas imagens para a televisão.
Este desafio representou um número grandes de obras e distúrbios para a rotina dos locais de Las Vegas há meses e para os turistas nas últimas semanas. Por exemplo, a Strip teve que ser inteira repavimentada, causando caos no tráfego, e um dos principais cartões postais da cidade, as fontes do hotel Bellagio tiveram sua vista da calçada encoberta porque na calçada foram construídas duas arquibancadas e dois grandes camarotes, então quem veio aqui nos últimos dois meses para aproveitar a cidade, teve dificuldade para ver as fontes e não teve a melhor visão delas.
Outro desafio, além de correr em um circuito de rua, que é sempre um desafio logístico, foi a necessidade da construção do prédio do pit, que foi posto de pé em cerca de um ano, um tempo recorde para uma estrutura tão grande de quatro andares.
No primeiro dia, quarta-feira aqui no horário local de Las Vegas (GMT -8) – cinco horas atrás do horário de Brasília (GMT -3) – o público e convidados tiveram a oportunidade de aproveitar a cerimônia de abertura do evento, com shows como 30 Seconds to Mars, Kylie Minogue, J Balvin, John Legend, Steve Aoki, will.iam, Tiesto, entre outros artistas, regado à boa bebida e comida, tudo-incluso para todos.
Apesar das críticas de alguns “puristas” sobre muita festa e pouco esporte, o objetivo da quarta era este mesmo: festa.
No primeiro dia de atividades de pista, quinta-feira à noite aqui, já madrugada no Brasil, toda expectativa em alta e um banho de água fria caiu sobre absolutamente todos os presentes e os que acompanhavam de longe: uma tampa de uma válvula de água se soltou e atingiu o carro de Carlos Sainz e Esteban Ocon, pondo um ponto final no primeiro treino livre com apenas 8 minutos passados.
Imediatamente após o acontecido, os engenheiros responsáveis pela pista quebraram a cabeça, leram os manuais, regulamentos e leis locais e decidiram por tirar todas as tampas do caminho – ao invés de selar suas bordas, como havia sido feito e falhado – e encher os buracos com areia e asfalto.
O serviço levou cinco horas para acontecer, o segundo treino livre foi atrasado em duas horas e meia e teve 90 minutos de duração, deixando o total de atividade na pista em 98 minutos, ao invés dos 120 minutos que teríamos na quinta.
Era claro desde a quarta-feira que boa parte da imprensa, principalmente a europeia, buscava motivos para criticar a corrida em Las Vegas, seja pelo fuso horário, seja pela “falta de esporte” e o excesso de festa, seja pela temperatura, enfim, qualquer motivo era motivo. O acontecido de quinta deu lenha para a fogueira que já queimava bastante e parte da imprensa se inflamou. Até no Brasil houve quem bradasse que o evento era uma vergonha para a história da Fórmula 1, mesmo sem ter vindo para cá, afinal aqui só havia dois jornalistas brasileiros da imprensa escrita: Victor D. Berto (este que escreve) pelo F1MANIA.NET e Rodrigo França pela Car Magazine Brasil.
A sexta-feira em Las Vegas foi o dia do último treino livre e a definição do grid de largada. Os treinos livres foram totalmente inconclusivos, o que parecia nos levar para uma qualificação maluca e com a possibilidade de vermos Max Verstappen, que neste domingo conquistou a sua 18ª vitória da temporada, largando em quinto ou até mesmo fora do top 5. Não foi o que aconteceu, alguns dos seus adversários, que pareciam fortes, acabaram ficando pelo caminho, eliminados no Q1, no Q2 … e aí a pole foi para Charles Leclerc, que era mesmo o favorito para isso – a Ferrari estava muito rápida. A segunda posição seria de Carlos Sainz, se não tivesse sido punido por exceder o limite de baterias alocadas para a temporada, então acabou sendo herdada por Verstappen, que qualificou em terceiro.
O segundo dia de atividades de pista parecia estar dando um fôlego de esperança para que o evento fosse mais bem avaliado, apesar de ainda muito se falar sobre o acontecido da quinta com a tampa da válvula.
Mas ninguém, absolutamente ninguém imaginava que o sábado (ou domingo para o Brasil) nos daria uma das melhores, senão a melhor corrida de toda da temporada 2023 de Fórmula 1.
Claro que teve festa, bagunça, alguns erros pelo caminho, um grid completamente lotado de celebridades, mas tivemos a segunda etapa do ano com mais ultrapassagens (82) na pista, perdendo somente para o GP da Holanda, mas aqui com um detalhe, a corrida em Zandvoort foi com chuva, então Las Vegas teve a corrida com maior número de ultrapassagens em pista seca este ano.
O final você já conhece: Charles Leclerc, Max Verstappen e Sergio Perez brigaram pela vitória durante boa parte da corrida e o holandês já tricampeão mundial há algumas etapas venceu. Logo ele, o maior crítico da corrida em Vegas entre os pilotos, se divertiu tanto e venceu.
Após a corrida ele voltou atrás em algumas das suas críticas, foi menos duro nas entrevistas e admitiu que está ansioso para voltar para cá no ano que vem.
Las Vegas é uma cidade agradável para o turismo, é conveniente ter uma corrida aqui, por mais que boa parte do público queira festa. Quem não quer? Festejar é bom!
Agora vamos ao que interessa, listo os principais pontos positivos e negativos do GP de Las Vegas com o olhar de quem esteve durante os quatro dias de programação dentro do paddock e da sala de imprensa.
Pontos positivos:
– O circuito tem um desenho que propicia ultrapassagens
– A corrida ser noturna nesta época do ano cria um desafio de temperatura para os pilotos, o que os bota para trabalhar e aí os melhores podem se destacar
– Vimos várias ultrapassagens em pontos sem uso do DRS
– Uma das mais emocionantes curvas do campeonato está em Vegas. A Curva 17, última do traçado, é feita a mais de 300 km/h para a esquerda, pé no fundo e em uma leve descida, é insano ver ao vivo e até mesmo pela TV. E ainda vimos alguns pilotos corajosos ultrapassando nessa curva. É de prender a respiração!
– As imagens que Las Vegas proporciona para a televisão e para os fotógrafos é sem igual
– A maioria dos torcedores vieram de diferentes estados norte-americanos, muito mais do que no GP dos EUA ou no GP de Miami, o que deve ajudar no longo prazo à Fórmula 1 se espalhar pelo país. Imagine, um cidadão de Montana, outro cidadão do Wisconsin e outro de Utah vêm para cá, compram camisetas das equipes (e se vendeu muito merchandising) e na segunda-feira volta para sua cidade natal, vestindo essa camiseta e vestindo várias outras vezes ao longo do ano…
– É super conveniente a corrida acontecer na zona turística da cidade, onde todos os maiores hotéis estão localizados. Você caminha um pouco e já está na pista. Em nenhum outro circuito do calendário você tem quase a totalidade do público, staff, pilotos, equipes e imprensa a uma caminhada do circuito sem pagar valores extremamente altos e com conforto
Pontos negativos:
– A organização julgou mal a força dos carros da Fórmula 1, principalmente depois do retorno do efeito solo, e não preparou a pista adequadamente, causando o caos na quinta-feira com o desprendimento de uma tampa de válvula d’água.
– Muitas celebridades no grid. Nada contra as celebridades, mas o número foi exagerado, era tanta gente que os pilotos não fizeram sua concentração no grid. Eles alinharam seus carros e voltaram para a garagem de suas equipes – algo que eu nunca havia visto nos meus anos de cobertura. Além disso, era tanta gente que faltando 3 minutos para a volta de formação, ainda se gritava no sistema de som: “esvaziem o grid!”. É necessário encontra um equilíbrio ou encontrar um outro horário para elas. Talvez uma visitação aos boxes em um horário exclusivo, só para as celebridades, sem os demais VIPs. Não sei, isto eu acho que precisa mudar. Eu gosto do show, mas não se pode atrapalhar o desenrolar do esporte.
– A organização julgou mal as variáveis e possibilidades de atraso da sua programação e, por conta disso, o TL2, atrasado em duas horas e meia, foi realizado de portões fechados. Há uma lei federal que limita a quantidade de horas que trabalhadores no setor de segurança e motoristas de ônibus podem exercer sua função, então, com a obrigação de mandar esses trabalhadores para casa, a Liberty teve que tomar a decisão de mandar os fãs embora também, já que não havia segurança, transporte etc. Para os dias seguintes, depois de aprendida a lição, a organização contratou funcionários extras, que cobririam caso os outros tivessem que ir embora em caso de atraso.
– As sessões são realizadas muito tarde no horário local. A qualificação foi às 00h, a corrida às 22h. Se por um lado é bom que seja neste horário para o mercado europeu, é ruim para o próprio mercado americano, já que é alta madrugada na costa leste, e extremamente desgastante para quem trabalha no evento – seja o staff, pilotos, equipes e para nós jornalistas. Outro ponto que força que as sessões sejam tarde é a própria logística da cidade, para que as ruas sejam fechadas o mais tarde possível, para que haja menor impacto, mas são quatro noites no ano, é importante que isso seja revisto.
– O calendário, como já se sabe, é muito longo e tem falhas do ponto de vista de logística, então corre-se aqui em Las Vegas, em que o fuso é GMT -8, com os pilotos vindo, em sua maioria da Inglaterra ou Europa (entre GMT +0 e GMT +2) e nesta sexta-feira já temos treinos livres em Abu Dhabi (GMT +4). Ou seja, em questão de poucos dias, eles vivem três fusos diferentes, com uma amplitude de 12 horas. É difícil o corpo humano aguentar. Foi possível ver exaustão de vários presentes, até mesmo de pilotos. Aliás, este foi o maior ponto de reclamação deles, mais do que o papo de “muita festa e pouco esporte”.
– O paddock é extremamente largo, exageradamente largo, e a iluminação é fraca. Mal dá para enxergar o rosto de quem vem contra você. Para todos, mas, principalmente, para a imprensa torna o nosso trabalho mais difícil. É difícil reconhecer quem está ali.
– Por fim, um ponto negativo para a imprensa. A Fórmula 1 construiu um prédio de garagens e camarotes, instalou tendas temporárias para as equipes dentro do paddock, mas a sala de imprensa foi “esquecida”. Foram usadas salas de conferência do hotel Tuscany para que a imprensa trabalhasse. Era necessário caminhar 12 minutos e passar pelo raio X toda vez que fosse ao paddock. E, nós jornalistas, trabalhamos um pouco no paddock, um pouco na sala, um pouco no paddock e um pouco na sala… Mas aqui em Vegas foi difícil fazer isso, pois se gastava 30 minutos só em caminhadas quando queria ir entrevistar alguém no paddock. FIA, nos coloquem dentro do paddock como em outros eventos, por favor!
E algumas curiosidades peculiares do GP de Las Vegas:
– Foi montada uma capela ao estilo de Vegas, com um padre Elvis Presley, para celebrar alguns casamentos no paddock. Jacques Villeneuve foi um dos noivos do fim de semana.
– Foi montando um cassino dentro do paddock, com direito à duas mesas de blackjack, uma roleta e algumas máquinas ‘caças-níqueis’. Mas o dinheiro era de mentirinha, só os drinks eram de verdade.
– Na entrada do paddock foi montado um tapete vermelho, característico de premiações como o Oscar, para que parte da imprensa pudesse entrevistar os famosos que entrassem no espaço.
Volto para o Brasil em alguns dias com sensação de dever cumprido, a satisfação de ter visto a melhor corrida do ano e de ter vivenciado a realização do primeiro GP de Las Vegas desde os anos 1980. Que a organização aprenda com os erros e que em 2024 tenhamos um evento melhor e a corrida nem precisa ser melhor, se for igual será um sucesso!
O F1MANIA.NET cobre o GP de Las Vegas da F1 ‘in loco’ com Victor Berto.
