O GP da Áustria de Fórmula 1 de 2026, disputado no último domingo (28), chamou a atenção pela temperatura. A Europa passa por uma onda de calor sem precedentes e correr em um carro a mais de 300 km/h no meio das colinas austríacas não parece uma boa ideia. Mas, com alguns dispositivos de resfriamento e muita água gelada, isso foi possível. O problema é que o verdadeiro balde d’água fria pode acordar muita gente para a realidade.
A maior quantidade de água gelada — ou melhor, de champanhe gelado — foi jogada justamente no vencedor da corrida, o britânico George Russell. O piloto da Mercedes vinha de uma sequência terrível e estava ficando para trás no campeonato. Na classificação, houve quem apontasse “sorte” pela batida de Max Verstappen, mas o ritmo que Russell apresentou no Q3 era bom o suficiente para disputar a pole position.

Russell fez uma corrida controlada, sem excessos, seguindo o recado de Toto Wolff: “apenas dirija”. Deu certo. A pole position seguida da vitória parece ter sido o respiro de que o piloto precisava para retomar o fôlego no campeonato e começar a aproveitar os momentos de fragilidade de Kimi Antonelli. Momentos que apareceram, e muito, no Red Bull Ring.
Antonelli fez um início de prova desastroso. Desesperado para superar as Ferraris na largada, saiu do traçado diversas vezes e cometeu erros já esperados para um piloto de apenas 19 anos. O resultado final acabou sendo lucrativo: um terceiro lugar, mas sem muito brilho. Conquistado mais pelos erros dos adversários do que por mérito próprio, desta vez. A água gelada bateu e o jovem italiano precisa prestar atenção na parte europeia do campeonato, seu ponto fraco no ano passado. Talvez vencer a qualquer custo não seja a melhor ideia neste momento.
Por falar em Ferrari, a equipe fez uma de suas piores corridas do ano. A vitória de Lewis Hamilton no GP de Barcelona criou esperanças, mas o circuito austríaco não costuma favorecer os carros italianos. Em 2026, esse cenário veio acompanhado de escolhas terríveis de estratégia. Fred Vasseur, chefe da equipe, chegou a comentar que esqueceram de focar na própria corrida. Uma fala inadmissível para uma equipe que precisa voltar ao topo com certa urgência.

Hamilton fez uma corrida honesta, utilizando os limites do carro e da estratégia. O britânico foi um dos grandes protagonistas da prova ao bater roda com Max Verstappen. A rivalidade entre os dois explodiu novamente e empolgou. Já Charles Leclerc voltou a decepcionar. Sem oferecer combate, o monegasco terminou apenas em oitavo e reacendeu entre os fãs o debate sobre ter sido superestimado ao longo da carreira.
Mas o maior e mais importante balde d’água fria foi para a Cadillac. A equipe, aliás, está cada vez mais acostumada ao conceito de ter água por perto: seus carros estão pegando fogo, literalmente. Quando surgiram informações na imprensa de que bombeiros ficaram de plantão em frente à garagem da equipe em Mônaco, parecia até uma piada de mau gosto.
Na Áustria, porém, os carros não aguentaram chegar longe. Em menos de três voltas, Valtteri Bottas já estava nos boxes cercado por extintores. Depois foi a vez de Sergio Pérez. Os freios da equipe já não transmitem confiança em condições normais de temperatura; em meio a uma onda de calor, então, não parece que a Cadillac vá muito longe. Em Silverstone, talvez seja melhor ter o corpo de bombeiros novamente na porta dos boxes.

A situação da equipe norte-americana é a mais preocupante. A Aston Martin, com todos os seus problemas de desempenho, ao menos consegue participar com mais regularidade dos treinos e das corridas, ainda que os resultados sejam decepcionantes. A equipe tem um objetivo. Já a Cadillac parece perdida no grid. E fora dele também.
Depois de todas as ações de divulgação para a estreia da equipe, com direito a grandes eventos em Miami e à revelação da pintura na Times Square, a Cadillac desapareceu. Nas transmissões das corridas, quase sempre aparece apenas por causa de algum problema. Além disso, sua dupla de pilotos não funciona. Bottas e Pérez passaram um ano completamente afastados da Fórmula 1, e isso prejudicou a conexão com o público, que também esperava ver ao menos um rosto novo no grid.
Para completar o desastre do primeiro ano da equipe na categoria, suas opções de substitutos também são fracas. Apostaram em Colton Herta, que faz uma temporada pífia na Fórmula 2 e é alvo de muitas críticas e desconfiança. A segunda opção é Guanyu Zhou, que também não parece mais se encaixar no ambiente da F1.
Para uma equipe iniciante, é normal cometer erros. É normal ter problemas com o carro. Mas, se quiser sobreviver no grid, a Cadillac precisa ser mais relevante. Precisa entregar, ao menos, objetivos concretos e uma direção clara para seu público e seus fãs. Falta clareza, falta jogar o jogo da F1. Falta apostar em peças que façam o mínimo de diferença no tabuleiro, nem que seja nos bastidores da equipe. Por enquanto, a Cadillac está mergulhada em uma piscina de gelo, mas não está se refrescando do calor.

Para finalizar, o GP da Áustria teve como um dos maiores destaques a boa performance de Max Verstappen. O tetracampeão ainda não está satisfeito com os resultados, mas sua batalha com Lewis Hamilton mostrou que o leão ainda está acordado dentro do holandês. Se a Red Bull conseguir ajustar o RB22, ele pode ajudar a agitar as corridas.
Em termos de campeonato, a Áustria pode, daqui a alguns meses, ser lembrada como um dos GPs que ajudaram a mudar os rumos da temporada. Antonelli precisará entender qual caminho quer seguir para continuar na ponta. Arriscar demais ou de menos? E, se escolher a primeira opção, a vantagem construída no início do ano será suficiente?
