O GP do Brasil de Fórmula 1 terá, pela primeira vez, a presença do Ônibus SP Por Todas, iniciativa do Governo de São Paulo voltada à prevenção do assédio e à orientação sobre os direitos das mulheres. A unidade móvel ficará instalada próxima ao Portão 09 do Autódromo de Interlagos, entre sexta-feira (6) e domingo (8), durante o fim de semana da corrida.
A ação acontece em meio à mobilização de torcedoras que denunciam situações de assédio e discriminação no evento. Uma das principais representantes desse movimento é Beatriz Rosenburg, que sofreu assédio em Interlagos em 2013 e transformou a experiência em uma campanha que, neste ano, pretende distribuir 4.500 adesivos com mensagens de respeito às mulheres.
A iniciativa de Beatriz começou em 2018, quando ela retornou ao autódromo depois de alguns anos afastada. Na primeira edição, imprimiu apenas 30 adesivos, distribuídos em poucas horas. Atualmente, a mobilização reúne 24 voluntárias e mantém uma rede de apoio com mais de 750 mulheres.
“Eu tive dúvidas de como os 30 adesivos seriam recebidos. Para minha positiva surpresa, no primeiro dia de evento eu já não tinha mais nenhum. As mulheres adoraram e os homens também queriam usar”, relembrou.
Desde 2022, a campanha também conta com o grupo Interlagos Safe, formado por torcedoras que compartilham informações, combinam trajetos e organizam pontos de encontro para acompanhar as corridas com mais segurança.
Apesar da mobilização, Beatriz afirma que episódios de assédio continuam acontecendo. Entre os relatos recebidos estão toques sem consentimento, trombadas intencionais e tentativas de aproximação física forçada.
“Não queremos ocupar as arquibancadas com medo ou precisar estar constantemente em alerta. Queremos simplesmente ter o direito de torcer, celebrar e aproveitar o esporte com a mesma liberdade e tranquilidade que qualquer outro fã”, afirmou.
A designer de moda Lisandra Francine Parede, de Arapongas, no Paraná, também encontrou apoio no movimento quando decidiu viajar sozinha para assistir à Fórmula 1 em Interlagos, em 2021.
Além da preocupação com a segurança física, ela relata situações em que homens questionaram seus conhecimentos sobre automobilismo, exigindo respostas sobre pilotos, equipes e engenheiros para que demonstrasse ser uma verdadeira fã. Lisandra também ouviu comentários sugerindo que mulheres frequentam corridas apenas pela aparência dos pilotos.
A chegada do Ônibus SP Por Todas amplia as iniciativas de conscientização durante o GP do Brasil. A unidade integra um programa estadual que, em suas ações itinerantes, oferece gratuitamente acolhimento psicossocial, orientação sobre direitos e encaminhamento à rede de proteção para mulheres em situação de violência.
A secretária estadual de Políticas para a Mulher, Adriana Liporoni, destacou que o objetivo é garantir que as torcedoras conheçam os mecanismos de proteção disponíveis.
“O assédio não pode ser tratado como parte da experiência de um evento esportivo. As mulheres têm o direito de ocupar as arquibancadas, acompanhar seus pilotos e aproveitar a corrida com liberdade e segurança”, afirmou.
Para Beatriz, a presença de um espaço de referência dentro de Interlagos também pode incentivar mulheres a procurar orientação diante de situações de constrangimento ou violência.
“Muitas vezes, saber que existe um local onde podem buscar ajuda, receber orientação ou simplesmente encontrar apoio já faz diferença. É importante que as torcedoras consigam visualizar esse espaço e saibam que não estão sozinhas caso passem por alguma situação de desconforto ou assédio”, destacou.
Durante o GP do Brasil, a Secretaria de Políticas para a Mulher também promoverá a distribuição de adesivos e brindes com mensagens de enfrentamento à violência. A iniciativa busca complementar a mobilização das próprias torcedoras, levando informações sobre direitos e proteção ao público presente em Interlagos.
