O GP de Barcelona de 2026 da Fórmula 1 aconteceu em meio a alguns eventos importantes no mundo: a Copa do Mundo da FIFA e a inauguração da Torre de Jesus Cristo na Basílica da Sagrada Família, uma obra fantástica do arquiteto catalão Antoni Gaudí, localizada justamente em Barcelona. O troféu da corrida, inclusive, homenageava o artista. E foi com ele que mais um evento histórico aconteceu no final de semana: Lewis Hamilton venceu com a Ferrari.
Para muitos, Lewis Hamilton é o maior piloto da história da Fórmula 1. Os números não mentem: 106 vitórias, 104 pole positions, 206 pódios. Ele só não é o maior na marca mais importante. O britânico conquistou sete títulos mundiais e está empatado com o alemão Michael Schumacher, outro gigante do esporte.
Já a Ferrari é a equipe mais vencedora da história da Fórmula 1. São 249 vitórias, 254 pole positions e 842 pódios, além de 16 títulos mundiais de construtores e 15 de pilotos. Cinco destes vieram com Schumacher. Com esse histórico, a união com Hamilton parecia um casamento perfeito.
Entretanto, o sonho começou conturbado e o heptacampeão se viu em uma “briga” com o SF-25, saindo decepcionado, frustrado e, por muitas vezes, questionando a si mesmo. Mas o grito de um fã no meio de uma multidão em abril de 2025 ficou na cabeça do piloto: “Lembre-se de quem você é, Lewis!” Esse grito virou uma forma de pensamento que o empurraria para o próximo ano.

Após várias decepções no ano passado, Hamilton iniciou a temporada 2026 mais leve, mais entrosado com a equipe e mais confiante. O primeiro pódio, no GP da China, aliviou o peso nas costas que ele carregava. Depois, o piloto conseguiu uma boa sequência com segundos lugares no Canadá e em Mônaco. Mas faltava a vitória.
E ela veio em Barcelona com a magnitude da obra mais famosa de Gaudí: justamente a Basílica da Sagrada Família. Caso o leitor não esteja familiarizado, essa igreja está em construção desde 1882 e a previsão é de que seja finalizada somente na próxima década. É o projeto mais ambicioso do arquiteto, a igreja mais alta do mundo, construída de forma lenta para um resultado impressionante.
Hamilton se classificou na segunda posição, com George Russell na pole e o atual fenômeno da Fórmula 1, Kimi Antonelli, em terceiro. Expectativas foram criadas: Antonelli teria sua sequência de vitórias quebrada? Russell finalmente conseguiria uma vitória para retomar o ritmo?
Bandeira verde e Russell manteve a liderança. Hamilton se segurou em segundo, e Antonelli ficou à espreita. Os três protagonistas da temporada estavam separados por poucos segundos. Durante boa parte da prova, parecia que Russell finalmente encerraria seu jejum. O piloto da Mercedes controlava o ritmo e não dava brechas.
Porém, quando um grande piloto resolve arriscar com uma grande equipe, a mágica acontece. A Ferrari sabe disso e decidiu apostar em uma estratégia agressiva de três paradas, mas precisava encontrar o momento ideal para executá-la. Até que Fernando Alonso causou um Safety Car Virtual que caiu como uma luva para Hamilton e ajudou o piloto a reduzir o tempo de sua parada.
E assim, quando a corrida voltou ao normal, o heptacampeão tinha a liderança nas mãos. A chance de vitória finalmente apareceu após um longo processo de adaptação. Agora, Hamilton só precisava assegurar que os carros da Mercedes não seriam um empecilho nas voltas finais.

Atrás de Russell, Antonelli lutava para terminar novamente à frente do companheiro e manter a boa fase. Mas a Fórmula 1 costuma lembrar seus pilotos de que existe uma linha tênue entre explorar os limites e pagar o preço por isso. A poucas voltas do fim, logo após dar tudo de si para ultrapassar Russell, o carro apresentou uma falha elétrica e o líder do campeonato abandonou a prova pela primeira vez no ano.
Na frente, Hamilton não cometeu um único erro. Foram 66 voltas para encerrar uma espera de quase dois anos sem vitórias e conquistar, finalmente, seu primeiro triunfo vestindo vermelho. A vitória de número 106 da carreira também transformou Hamilton, aos 41 anos, no vencedor mais velho desde 1970.
Russell completou a dobradinha britânica na segunda posição, enquanto Lando Norris levou a McLaren ao terceiro lugar. Foi o primeiro pódio inteiramente britânico na Fórmula 1 desde 1968.

Mas, além das estatísticas, o que ficou foi o peso do momento. Hamilton se viu sendo entrevistado pelo seu maior rival: Nico Rosberg, justamente na pista onde ambos, 10 anos atrás, protagonizaram um dos momentos mais tensos entre companheiros de equipe. A batida em Barcelona foi um dos fatores que levaram Rosberg ao título naquele ano.
Todos os acontecimentos desta corrida tornaram a vitória de Hamilton com a Ferrari em um momento histórico. Logo após sair do carro e comemorar com a equipe, o britânico precisou de um momento sozinho para se recompor. Segundo ele, a sensação era de que iria desmaiar. Um vencedor de 106 corridas na Fórmula 1 completamente atordoado por uma vitória que, em qualquer outro momento de sua carreira, seria apenas mais uma. No rádio, o agradecimento: “Obrigado aos fãs por continuarem me relembrando quem eu sou.”
Talvez exista certa poesia no fato de tudo isso ter acontecido em Barcelona. A cidade que abriga uma obra em andamento iniciada em 1882 testemunhou também a consolidação de outra construção, muito mais recente: a parceria entre Lewis Hamilton e Ferrari.
Depois de uma temporada de dúvidas, frustrações e adaptação, piloto e equipe finalmente encontraram o resultado que pareciam destinados a alcançar desde o anúncio da união. Como a Sagrada Família, foi um processo longo, por vezes turbulento, mas capaz de produzir algo memorável.
Talvez não houvesse palco melhor que Barcelona para escrever essa página da história da Fórmula 1.
Pontos positivos da prova
Destaque para Russell, que foi firme ao longo de todo o fim de semana e não caiu na armadilha de Antonelli, evitando reencenar a cena de dois carros da Mercedes batendo em Barcelona como Hamilton e Rosberg fizeram em 2016.
Bom desempenho da Alpine dentro e fora das pistas. A equipe foi até o fim com o pedido de revisão em Mônaco e reconquistou o pódio de Pierre Gasly. Além disso, o francês e seu companheiro argentino Franco Colapinto finalizaram a corrida na Catalunha dentro do top-10, trazendo cada vez mais alívio para a equipe após o desastroso 2025.

Destaque negativo
O desempenho dos pilotos fora do top-10 foi muito abaixo do esperado e todos deveriam estar nessa sessão. Mas o destaque vai para a Aston Martin, que provavelmente deu a Fernando Alonso a pior despedida possível do Circuito de Barcelona. O duplo abandono, justo em uma das pistas de pré-temporada, mostra que a equipe tem muito a resolver e que provavelmente o ADUO (Aerodynamic and Power Unit Development Opportunity), que permitirá o aprimoramento dos motores, não será suficiente para salvar a temporada da equipe.
