F1: Verstappen e Alonso apontam o que tornou Senna um ídolo tão especial no mundo

Às vésperas do GP do Brasil, em São Paulo, pilotos discutem o legado dos três campeões mundiais brasileiros e explicam como carisma, personalidade e conquistas ajudaram a construir a imagem de Ayrton Senna.

A relação de Ayrton Senna com o público brasileiro voltou a ser assunto no paddock da Fórmula 1 nesta quinta-feira (5), durante as atividades que antecedem o GP do Brasil de 2026, em São Paulo. Fernando Alonso e Max Verstappen foram convidados a refletir sobre o reconhecimento conquistado pelo tricampeão mundial e sobre as diferenças entre sua popularidade e a de outros dois grandes nomes do automobilismo nacional, Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet.

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Embora os três tenham alcançado o título mundial e contribuído para consolidar a presença brasileira na história da categoria, Senna construiu uma relação particularmente intensa com os torcedores. Para Alonso e Verstappen, essa identificação não pode ser explicada apenas pelos resultados nas pistas, envolvendo também características pessoais, a maneira como cada piloto se apresentava ao público e as circunstâncias que marcaram suas trajetórias.

O assunto ganhou destaque justamente em Interlagos, circuito que mantém uma ligação histórica com Senna. Nascido em São Paulo, o brasileiro conquistou três campeonatos mundiais pela McLaren, em 1988, 1990 e 1991, e se tornou uma das figuras mais reconhecidas do esporte nacional.

Verstappen coloca as vitórias acima da popularidade

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Ao comentar a relação entre pilotos e torcedores, Verstappen adotou uma perspectiva diferente daquela frequentemente associada à trajetória de Senna. O holandês reconheceu a importância da identificação com o público, mas explicou que conquistar popularidade nunca esteve entre suas principais preocupações como competidor.

Para o piloto da Red Bull, o objetivo central de sua carreira sempre foi vencer corridas e alcançar os melhores resultados possíveis, independentemente da maneira como sua personalidade é recebida fora das pistas.

“Estou aqui para vencer. Esse é meu sonho desde criança”, afirmou Verstappen, deixando claro que a busca por resultados tem prioridade sobre o reconhecimento pessoal.

O holandês explicou que considera mais importante acumular vitórias do que estabelecer uma conexão com todos os torcedores. Para ele, a popularidade representa uma consequência positiva da carreira, mas não um objetivo que deva orientar suas decisões.

“Isso é legal, é um bônus, mas meu trabalho é vencer”, acrescentou.

A declaração ajuda a compreender uma das diferenças entre os grandes campeões da Fórmula 1. Embora o sucesso esportivo seja um elemento comum, a maneira como cada piloto se relaciona com o público pode variar consideravelmente.

Verstappen também observou que Senna, Piquet e Fittipaldi possuíam personalidades distintas, apesar de todos terem alcançado resultados expressivos na categoria.

“Os três tinham personalidades muito diferentes. Todos conquistaram muito no esporte”, destacou.

O holandês acrescentou que a origem paulistana de Senna contribui para explicar a intensidade das homenagens recebidas pelo tricampeão em Interlagos. A identificação regional, somada às conquistas internacionais, ajudou a estabelecer uma relação que permanece presente no circuito brasileiro.

Ayrton Senna
Foto: Norio Koike

Alonso destaca o carisma como diferencial de Senna

Fernando Alonso apresentou outra perspectiva para explicar a dimensão alcançada pelo legado de Senna.

Na avaliação do espanhol, a popularidade do tricampeão brasileiro estava diretamente relacionada à sua capacidade de estabelecer uma identificação espontânea com as pessoas.

Alonso considera que Senna possuía um carisma e uma personalidade que o diferenciavam de outros campeões, mesmo daqueles que também acumularam conquistas importantes.

“Ayrton tinha mais carisma, personalidade. Talvez tivesse algo diferente dos outros campeões”, afirmou Alonso.

O bicampeão ressaltou que Nelson Piquet, por exemplo, também conquistou três títulos mundiais, mas desenvolveu uma relação diferente com o público.

Para Alonso, essa conexão não depende exclusivamente de resultados ou de uma tentativa deliberada de conquistar a simpatia dos torcedores. Trata-se de uma característica pessoal, que precisa surgir naturalmente.

“Ou você tem isso ou não tem”, resumiu o espanhol.

O piloto da Aston Martin explicou que um competidor pode se esforçar para se aproximar do público sem necessariamente conseguir estabelecer uma identificação verdadeira. Em sua avaliação, Senna possuía essa capacidade de maneira espontânea, sem precisar modificar sua personalidade para conquistar reconhecimento.

A interpretação de Alonso ajuda a explicar por que a imagem de Senna ultrapassou os limites do automobilismo e passou a ocupar um espaço mais amplo na cultura brasileira.

Durante sua carreira, o tricampeão tornou-se uma referência nacional em um período no qual suas vitórias eram acompanhadas por milhões de brasileiros, especialmente nas manhãs de domingo.

Sua imagem passou a representar não apenas o sucesso de um piloto, mas também sentimentos de identificação e orgulho nacional.

A morte de Senna e a construção de seu legado

Outro aspecto mencionado por Verstappen foi a morte de Senna, em 1994, durante o GP de San Marino, em Ímola.

O piloto da Red Bull reconheceu que a tragédia contribuiu para a maneira como a memória do brasileiro passou a ser preservada e reverenciada ao longo das décadas.

“Também existe a história triste de que ele faleceu”, observou Verstappen.

Na avaliação do holandês, a perda precoce fez com que o legado de Senna adquirisse uma dimensão ainda maior, embora tenha ressaltado o caráter profundamente triste das circunstâncias.

Verstappen também fez questão de reconhecer a posição do brasileiro entre os grandes nomes da história da Fórmula 1.

“Ele foi um dos melhores pilotos de todos os tempos? 100%”, afirmou.

O holandês acrescentou que considera significativo observar como o tricampeão continua sendo lembrado e o quanto sua trajetória representa para os brasileiros.

A permanência dessa identificação pode ser observada especialmente durante os fins de semana de Fórmula 1 em Interlagos.

Bandeiras, capacetes, camisetas e diferentes homenagens fazem parte do ambiente do circuito, mantendo a imagem de Senna presente mesmo entre torcedores que não acompanharam suas corridas.

A lembrança do tricampeão também atravessa gerações, demonstrando como sua trajetória continua influenciando a relação do público brasileiro com o automobilismo.

(L to R): Max Verstappen (NLD) Red Bull Racing; Arvid Lindblad (GBR) Racing Bulls Formula One Team; and Fernando Alonso (ESP) Aston Martin F1 Team, in the FIA Press Conference.
Foto: XPB Images

Fittipaldi também deixou sua marca fora do Brasil

Embora Senna tenha sido o principal assunto da conversa, Alonso aproveitou a oportunidade para destacar que a influência dos campeões brasileiros não se limita ao tricampeão da McLaren.

O espanhol citou Emerson Fittipaldi como exemplo de um piloto que também alcançou reconhecimento expressivo fora do Brasil.

Segundo Alonso, o bicampeão mundial tornou-se tão conhecido na Espanha que seu sobrenome passou a ser utilizado informalmente como uma referência à velocidade.

“Na Espanha, Emerson é bastante popular”, contou o piloto da Aston Martin.

Alonso recordou que os espanhóis costumavam empregar uma expressão equivalente a “Aonde você vai, Fittipaldi?” quando alguém se deslocava rapidamente.

A lembrança demonstra que a importância histórica de Fittipaldi também ultrapassou o universo das competições.

Campeão mundial em 1972 e 1974, o brasileiro foi o primeiro representante do país a conquistar o título da Fórmula 1, abrindo caminho para as gerações seguintes.

Nelson Piquet, por sua vez, conquistou os campeonatos de 1981, 1983 e 1987, consolidando a presença brasileira entre os principais nomes da categoria durante a década de 1980.

Senna completou essa sequência de conquistas com os títulos de 1988, 1990 e 1991.

Assim, antes mesmo de considerar as diferenças de popularidade, os três pilotos representam capítulos fundamentais da história do Brasil na Fórmula 1.

Interlagos mantém viva a história dos campeões brasileiros

A discussão entre Alonso e Verstappen acontece em um cenário especialmente simbólico.

Interlagos recebeu sua primeira corrida válida pelo Mundial de Fórmula 1 em 1973, justamente no período em que Emerson Fittipaldi se consolidava como um dos principais pilotos da categoria.

Ao longo das décadas seguintes, o circuito acompanhou diferentes gerações do automobilismo brasileiro e se tornou palco de momentos importantes para Piquet e Senna.

Para Senna, vencer em casa representava um objetivo particularmente significativo. O tricampeão conquistou suas duas vitórias no circuito em 1991 e 1993, ambas pela McLaren.

A primeira delas permanece entre as atuações mais lembradas de sua carreira, depois de enfrentar problemas mecânicos nas voltas finais e cruzar a linha de chegada em condições extremamente difíceis.

Mais de três décadas depois, a relação entre Senna e Interlagos continua sendo uma das características mais marcantes do GP do Brasil.

A presença de Gabriel Bortoleto no grid também acrescenta um novo capítulo à trajetória dos pilotos brasileiros na categoria. O representante da Audi disputa sua segunda temporada na Fórmula 1 e chega à etapa nacional depois de conquistar pontos no México.

Ao analisar as diferenças entre Senna, Piquet e Fittipaldi, Alonso e Verstappen acabaram destacando duas dimensões que ajudam a explicar a construção de um ídolo esportivo: os resultados conquistados nas pistas e a maneira como sua trajetória é percebida pelo público.

Para Alonso, o carisma espontâneo de Senna foi determinante para estabelecer essa identificação. Verstappen, por sua vez, destacou as diferenças de personalidade, a ligação do tricampeão com São Paulo e o impacto de sua morte na preservação de sua memória.

As interpretações são diferentes, mas convergem em um ponto: o reconhecimento da importância dos três campeões para a Fórmula 1 e da dimensão especial que Ayrton Senna continua ocupando na história do automobilismo brasileiro.

O F1Mania.net acompanha o GP do Brasil, em São Paulo, in loco com Nathalia de Vivo e Victor Berto.