Análise: Madri estreia como grande evento, mas ainda busca sua identidade na F1

No último final de semana, a Fórmula 1 apresentou seu novo circuito, o Madring. A pista chegou ao calendário com um contrato de dez anos e uma promessa de ser empolgante, arriscada, até mesmo arisca com suas curvas difíceis.

E, realmente, a expectativa parecia se confirmar. No primeiro teste da Fórmula 3, foram 19 bandeiras vermelhas. Um sinal de que os pilotos precisariam de muita atenção, já que o mínimo descuido poderia acabar com a corrida de muitos.

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Apesar de toda a empolgação, tanto a imprensa quanto o público pareciam esquecer de uma coisa: a F3 é uma categoria de base que já costuma apresentar muitos incidentes em pistas conhecidas. Ali, os pilotos ainda estão “crus” e, em um circuito novo e com características parecidas com Mônaco, o excesso de bandeiras vermelhas não parece tão absurdo.

É por isso que o que se viu no último domingo (13) na Fórmula 1 acabou sendo uma decepção para os fãs. Ninguém esperava grandes acidentes, mas pelo menos movimentações mais complicadas, que proporcionassem dinâmica para a corrida, eram esperadas.

Andrea Kimi Antonelli (ITA) Mercedes AMG Formula One Team W17.
Foto: XPB Images

O que se viu foi um desfile de carros, com o pior número de ultrapassagens da temporada. Pior até mesmo do que a já tradicional Mônaco. Nas redes sociais, as reclamações e piadas deram o tom do final de semana, com acusações de que o novo GP da Espanha seria um ótimo substituto para remédios para dormir.

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Por outro lado, comercialmente, a prova no Madring parece ter sido um sucesso. Celebridades como Vini Jr., Rafael Nadal, José Mourinho, Sergio Ramos, Endrick e até mesmo a maior influenciadora brasileira atualmente, Virginia, estiveram presentes. Houve repercussão na mídia e, de acordo com o portal espanhol RTVE, um impacto de mais de 470 milhões de euros.

Essa combinação de apelo comercial e corrida pouco empolgante levou a uma dura crítica do público: até quando a F1 só vai pensar pelo lado comercial?

Porém, a melhor pergunta para toda essa situação seria: como a F1 pode conciliar melhor o lado comercial com a emoção em pista?

E essa mudança de pergunta não é uma forma de proteger a Fórmula 1, nem mesmo de forçar o público a engolir uma prova com praticamente nenhuma ultrapassagem. É uma forma de encarar o esporte como ele realmente é.

A Fórmula 1 pensa comercialmente desde a profissionalização da categoria. E aqui voltamos aos anos 1970, com a chegada de patrocinadores, divulgação de marcas e acordos comerciais que ajudaram a categoria a se tornar a grandiosidade que é hoje. E foram esses mesmos acordos que permitiram que grandes nomes passassem pela F1.

Gabriel Bortoleto (BRA) Audi F1 Team R26.
Foto: XPB Images

É impossível pensar em Ayrton Senna e não lembrar da patrocinadora da McLaren em sua era de ouro. Também é impossível não saber qual banco patrocinava a Ferrari na época em que Michael Schumacher fez história. Mas, muito além disso, o comercial é apelativo até mesmo nas equipes que estão na Fórmula 1: quando você vê um carro da Mercedes na rua, é normal pensar em Lewis Hamilton.

O GP de Mônaco, apesar de muito criticado atualmente pela morosidade, continua sendo um desejo de muitos fãs da Fórmula 1. A adrenalina da corrida nas ruas do principado, as curvas icônicas que já presenciaram momentos históricos, a classificação que hoje é o ponto alto da corrida e, claro, a tradição tornam a prova um sonho de consumo, mesmo com as críticas anuais em relação à falta de dinâmica devido ao tamanho dos carros atuais.

Outro sucesso é Las Vegas. Inicialmente muito criticada — e ainda sendo extremamente comercial, com direito a show da Disney e atores de Hollywood aparecendo aleatoriamente na transmissão —, a “breguice” foi ganhando espaço aos poucos e já se tornou um momento esperado no calendário. O público quer saber qual será a invenção de marketing da vez, além da própria corrida, que também se tornou interessante.

Então, existem exemplos de que ser uma pista comercial não é exatamente um problema. E, por isso mesmo, a crítica de que o Madring foi pensado apenas para o lado comercial da F1 não é exatamente justa.

Muitos fatores podem interferir no sucesso de uma pista, além do próprio traçado. Mônaco, como citado antes, já teve momentos históricos em uma era de carros menores. Monza, outra das pistas mais tradicionais da Fórmula 1, também já passou por corridas em que a disputa pela vitória foi menos movimentada. Isso mostra que o sucesso de um circuito não depende apenas do traçado, mas também dos carros e do momento da Fórmula 1.

The podium (L to R): Max Verstappen (NLD) Red Bull Racing, second; Andrea Kimi Antonelli (ITA) Mercedes AMG Formula One Team, race winner; Lando Norris (GBR) McLaren F1 Team, third.
Foto: XPB Images

Madring fez sua estreia com altas expectativas e, em um ano de novo regulamento, o impacto negativo no lado competitivo foi ainda maior. Ao mesmo tempo, um ponto positivo foi justamente o novo circuito não ficar marcado por fortes acidentes. Antes uma corrida monótona do que uma corrida que traga risco e desconfiança.

Voltando à pergunta desta análise: como a F1 pode conciliar melhor o lado comercial com a emoção em pista?

Talvez ouvir os pilotos e fazer alterações no circuito seja uma boa ideia. Boa parte do grid atual expressou seu descontentamento pós-corrida, mas George Russell pontuou que nem todos os pilotos estão interessados em se reunir em prol de apresentar novas ideias. Falta tempo, falta interesse.

Esse também é um ponto a se pensar. Em décadas anteriores, os pilotos conseguiam se reunir para interferir diretamente em questões importantes.

Essa é uma faca de dois gumes, já que ter um grid unido pode ou não se tornar um problema político dentro da Fórmula 1. Mas, em uma situação como a do circuito de Madri, seria interessante ver o impacto de propostas de quem realmente está acelerando na pista. Não é algo que deve acontecer, de acordo com Russell.

Max Verstappen (NLD) Red Bull Racing RB22.
Foto: XPB Images

Nos próximos anos, o regulamento será atualizado, o que pode influenciar na corrida também e dar um fio de esperança para Madri.

Porém, falta algo no circuito espanhol.

Mônaco tem a conexão com o público. Las Vegas tem a expectativa pela inovação de marketing da vez. Até mesmo Miami, que foi uma corrida inicialmente muito rejeitada, conseguiu cativar os fãs.

Talvez o caminho para tornar a corrida atrativa em uma era de carros enormes, que não favorecem circuitos de rua, esteja justamente no lado comercial da Fórmula 1. Mas só trazer celebridades para o grid não é a resposta. Madri ainda precisa descobrir qual será seu apelo.

A cidade já mostrou que consegue transformar a Fórmula 1 em um grande evento. Agora precisa encontrar aquilo que fará o público olhar para o Madring e reconhecer que existe algo ali além do espetáculo montado ao redor da pista. Afinal, são dez anos de contrato.