Review: NASCAR 26 coloca experiência da iRacing nos consoles

Durante muitos anos, quem procurava uma experiência realmente convincente da NASCAR nos videogames tinha basicamente duas escolhas: aceitar as limitações dos jogos de console ou partir para o universo muito mais complexo — e caro — dos simuladores de PC. NASCAR 26, desenvolvido pela iRacing Studios, não elimina completamente essa divisão, mas é provavelmente a tentativa mais competente até agora de aproximar esses dois mundos.

Testamos NASCAR 26 no PlayStation 5, e a primeira coisa que precisa ficar clara é justamente esta: não se trata de uma versão de iRacing para consoles. O jogo utiliza tecnologias, dados e principalmente o conhecimento acumulado pela empresa responsável por um dos simuladores mais respeitados do PC, mas foi projetado desde o início para ser um produto independente e muito mais acessível.

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É uma distinção importante, porque NASCAR 26 funciona melhor quando analisado exatamente desta forma. Ele consegue ser consideravelmente mais sério que os antigos NASCAR Heat sem exigir do jogador o compromisso quase profissional que faz parte da experiência de iRacing.

E, principalmente, continua o processo de reconstrução da franquia iniciado por NASCAR 25.

A NASCAR voltou a ter um bom jogo

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Para entender a importância de NASCAR 26, é preciso lembrar o que aconteceu com os jogos oficiais da NASCAR nos últimos anos.

A série NASCAR Heat nunca foi particularmente sofisticada, mas chegou a encontrar uma fórmula bastante competente. NASCAR Heat 4 e, especialmente, NASCAR Heat 5 entregavam corridas divertidas, uma quantidade razoável de opções e uma pilotagem suficientemente acessível para funcionar bem com controle.

Heat 5 acabou sobrevivendo durante muito mais tempo do que provavelmente seus próprios desenvolvedores imaginavam.

O motivo veio logo depois.

NASCAR 21: Ignition deveria representar uma nova geração para a franquia, mas acabou se transformando em um dos capítulos mais problemáticos da história recente dos jogos de automobilismo. Bugs, inteligência artificial inconsistente, ausência de recursos básicos, problemas com bandeiras, uma carreira superficial e uma experiência geral que parecia inacabada fizeram com que até NASCAR Heat 5 permanecesse uma alternativa mais interessante.

A virada aconteceu quando a iRacing adquiriu, em 2023, os direitos exclusivos para desenvolver jogos de NASCAR de estilo simulação para consoles. A empresa já tinha uma relação de mais de uma década com a categoria e uma posição completamente diferente dentro do automobilismo virtual.

Além disso, havia um detalhe importante: desde 2022, a iRacing também era dona da Monster Games.

O estúdio de Minnesota possui enorme experiência justamente com jogos de corrida para consoles e trabalhou em vários títulos da NASCAR, incluindo NASCAR Heat e o cultuado NASCAR: Dirt to Daytona. Posteriormente, toda essa estrutura passou a fazer parte da marca iRacing Studios.

O resultado dessa combinação apareceu primeiro em NASCAR 25.

E NASCAR 26 é, acima de tudo, a evolução dessa base.

Não é iRacing, mas existe muito de iRacing aqui

A presença do nome iRacing pode gerar uma expectativa perigosa.

No PC, iRacing é uma plataforma de simulação extremamente especializada. O serviço possui sistema de licenças, Safety Rating, campeonatos oficiais, servidores organizados por horários, carros vendidos individualmente e um modelo de assinatura. Toda a estrutura é desenvolvida pensando prioritariamente em sim racers.

NASCAR 26 possui uma filosofia diferente.

A apresentação, os menus, o modo carreira, as assistências e até a maneira como o controle DualSense é utilizado foram desenvolvidos para que alguém possa simplesmente instalar o jogo no PS5 e começar a correr.

Tecnicamente, também não estamos falando do mesmo jogo ou simplesmente do motor de iRacing portado para o console.

NASCAR 25 foi construído utilizando Unreal Engine 5, e NASCAR 26 dá continuidade a essa estrutura. O que existe é compartilhamento de conhecimento, tecnologia, dados, modelos e ativos entre os projetos.

Um dos exemplos mais importantes são as pistas.

O próprio iRacing possui há anos uma extensa biblioteca de circuitos digitalizados com laser scanning. Durante o desenvolvimento de NASCAR 25, a empresa iniciou inclusive um projeto interno de atualização de suas pistas da NASCAR justamente para beneficiar simultaneamente o simulador de PC e o jogo de console.

Na prática, isso significa que NASCAR 26 pode aproveitar uma base extremamente precisa para reproduzir os autódromos.

Ondulações, inclinações, banking e características do asfalto deixam de ser apenas aproximações artísticas. Existe informação real por trás da construção dessas pistas.

Para quem já jogou iRacing, algumas delas imediatamente parecem familiares.

Mas a maior influência está mesmo na maneira como o jogo entende uma corrida.

Pilotagem é o grande destaque

NASCAR 26 não é um simulador hardcore, mas também está muito distante de um arcade.

O termo “simcade”, muitas vezes usado para Gran Turismo e outras franquias, descreve relativamente bem o posicionamento do jogo.

Com as assistências ativadas, NASCAR 26 é perfeitamente utilizável com o DualSense. Conforme elas são removidas, entretanto, o comportamento do carro passa a exigir bastante mais precisão.

E é aqui que NASCAR 26 apresenta sua maior evolução em relação a NASCAR 25.

O novo modelo de pneus e a reformulação da frenagem melhoraram significativamente a quantidade de informação recebida pelo jogador.

É possível perceber quando a dianteira começa a escapar, quando a traseira está próxima do limite e principalmente como o equilíbrio do carro muda durante uma sequência longa de voltas.

Isso é fundamental em NASCAR.

Um oval pode parecer extremamente simples para quem observa de fora. Em determinados circuitos, porém, alguns centímetros na entrada de uma curva são suficientes para mudar completamente a trajetória e comprometer a saída.

Some isso ao tráfego.

Correr sozinho é uma coisa. Fazer exatamente a mesma curva com dois carros ao lado muda tudo.

NASCAR 26 é especialmente bom quando o jogador precisa encontrar espaço dentro de um pelotão. O carro transmite peso, exige pequenas correções e não aceita indefinidamente que você entre nas curvas como se os pneus possuíssem aderência infinita.

No controle do PS5, os gatilhos adaptáveis e a vibração ajudam a transmitir parte dessas informações. Naturalmente, um volante permite extrair muito mais do modelo de pilotagem, mas NASCAR 26 não passa a impressão de que o controle seja uma opção de segunda categoria.

Isso é importante.

Se iRacing foi desenvolvido essencialmente ao redor de volante e pedais, NASCAR 26 precisa funcionar no sofá.

E funciona.

Pista dinâmica muda as corridas

Outra novidade importante é o sistema de pista dinâmica.

A condição do asfalto pode mudar durante um fim de semana e até mesmo durante uma corrida, alterando a quantidade de aderência disponível e tornando determinadas linhas mais ou menos interessantes conforme os carros passam por elas.

É outra ideia imediatamente associada ao universo dos simuladores de PC, mas utilizada aqui de uma maneira menos intimidadora.

Você não precisa estudar telemetria durante meia hora para perceber o efeito.

Basta correr.

Depois de algumas voltas, é possível notar que aquela trajetória utilizada no início da prova talvez não seja mais necessariamente a melhor. O comportamento dos pneus também muda conforme o stint avança.

É justamente nesse tipo de detalhe que NASCAR 26 se distancia bastante da era Heat.

Nos jogos mais antigos, muitas corridas acabavam se transformando em um exercício de repetição: encontre a trajetória rápida e tente executá-la dezenas ou centenas de vezes.

Em NASCAR 26 há mais variáveis.

E isso transforma principalmente as provas mais longas.

A inteligência artificial também contribui para isso. Os adversários conseguem disputar posições lado a lado, utilizar o vácuo e formar diferentes linhas em superspeedways. Não é uma IA perfeita — entradas de boxes, relargadas e determinadas situações de bandeira amarela ainda podem produzir comportamentos estranhos —, mas está várias gerações à frente do caos apresentado por NASCAR 21: Ignition.

É justamente quando Daytona ou Talladega ficam completamente congestionados que o jogo mostra melhor suas qualidades.

Há momentos em que basta uma pequena movimentação de volante para perder o carro.

Isso é NASCAR.

Carreira ainda é o principal modo

NASCAR 26 traz quatro categorias: ARCA Menards Series, NASCAR Craftsman Truck Series, NASCAR O’Reilly Auto Parts Series e NASCAR Cup Series.

O modo carreira permite começar por baixo e construir o caminho até a Cup.

Além das corridas, existe gerenciamento de peças, reparos, funcionários e instalações. NASCAR 26 amplia o sistema introduzido no jogo anterior com Facility Upgrades, permitindo direcionar recursos para áreas diferentes da equipe.

Existe também um sistema de reputação e decisões entre os fins de semana.

Funciona.

O problema é que talvez esta seja justamente a área na qual NASCAR 26 mais evidencia seu parentesco com NASCAR 25.

A carreira possui sistemas, mas falta vida.

Ainda não existe a sensação de estar inserido em um universo esportivo realmente dinâmico. Pilotos não constroem histórias particularmente interessantes ao redor do jogador, equipes não passam por grandes transformações e a temporada não possui o tipo de narrativa emergente que faria cada carreira parecer completamente diferente.

É competente como estrutura de progressão.

Como fantasia de ser um piloto da NASCAR, ainda pode evoluir muito.

Comparado com NASCAR Heat 5, entretanto, há mais profundidade mecânica e principalmente uma experiência de pilotagem muito superior.

Comparado com NASCAR 21: Ignition, nem existe disputa.

NASCAR 26 parece um jogo completo.

Ignition muitas vezes parecia um protótipo lançado antes da hora.

The Chase e Peak Performance

Além da carreira, NASCAR 26 adiciona dois modos interessantes.

The Chase permite disputar diretamente as dez últimas provas de uma temporada em busca do campeonato. É uma ótima opção para quem gosta da estrutura competitiva da NASCAR, mas não necessariamente quer investir tempo em uma temporada completa.

Peak Performance funciona quase como uma escola de pilotagem.

Steve Letarte e Jamie McMurray ajudam a explicar conceitos e técnicas para diferentes pistas, tornando o modo particularmente interessante para jogadores que estão chegando à NASCAR.

É uma inclusão muito inteligente.

Um dos problemas históricos dos simuladores é assumir que o jogador já sabe pilotar.

NASCAR 26 tenta ensinar.

E isso também resume bastante bem sua filosofia: oferecer profundidade suficiente para que você queira melhorar sem transformar aprendizado em obrigação.

Multiplayer finalmente ganha crossplay

Outra evolução importante está no multiplayer.

NASCAR 26 permite crossplay entre PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC.

Para um jogo relativamente nichado fora dos Estados Unidos, juntar os jogadores de todas as plataformas é particularmente importante.

A estrutura online, entretanto, está muito mais próxima de um jogo convencional de console do que de iRacing.

Não espere encontrar aqui o complexo sistema de licenças, ratings, splits e campeonatos oficiais do simulador.

As corridas online são mais simples e dependem bastante das salas criadas pelos próprios jogadores.

É provavelmente a maior diferença conceitual entre NASCAR 26 e iRacing.

No simulador de PC, toda a experiência gira em torno da competição online organizada.

Em NASCAR 26, multiplayer é apenas uma das partes do pacote.

Visualmente melhor, embora não espetacular

No PS5, NASCAR 26 apresenta melhorias perceptíveis em iluminação, céu, partículas, fumaça e efeitos climáticos em relação ao jogo anterior.

Os carros são bem detalhados e, em movimento, o conjunto funciona particularmente bem.

A iluminação dinâmica também ajuda muito na atmosfera das corridas.

Ainda assim, NASCAR 26 não é uma referência gráfica da atual geração.

Alguns elementos das pistas possuem menos detalhes do que se esperaria, determinadas texturas chamam atenção quando observadas de perto e animações fora da pista ainda denunciam um orçamento bem diferente daquele encontrado em Gran Turismo 7 ou na série F1.

Os danos também poderiam ser muito mais convincentes.

Considerando a quantidade de contatos que faz parte de uma corrida da NASCAR, seria natural esperar deformações muito mais expressivas nos carros.

O áudio, por outro lado, faz um bom trabalho ao transmitir a brutalidade da categoria.

Com dezenas de carros acelerando juntos, especialmente com fones ou um sistema de áudio competente, NASCAR 26 consegue reproduzir bem o ambiente ensurdecedor de uma corrida.

NASCAR 25 ou NASCAR 26?

Para quem não comprou NASCAR 25, a resposta é fácil.

NASCAR 26 é o jogo que deve ser escolhido.

A pilotagem é melhor, o modelo de pneus avançou, a frenagem está mais convincente, existe pista dinâmica, crossplay, novos circuitos, The Chase e Peak Performance.

Para quem já possui NASCAR 25, a discussão é mais complicada.

NASCAR 26 não representa a mesma transformação que aconteceu entre NASCAR 21: Ignition e NASCAR 25.

Ele parece muito mais uma segunda versão de uma plataforma que já estava funcionando.

Isso significa que algumas limitações do jogo anterior continuam presentes, principalmente na carreira e em determinadas situações envolvendo inteligência artificial e bandeiras.

Dependendo do preço, um proprietário de NASCAR 25 pode perfeitamente decidir esperar por uma promoção.

Mas isso não transforma NASCAR 26 em um jogo pior.

Na pista, ele é claramente melhor.

E, para um jogo de corrida, esse talvez seja o aspecto mais importante.

O melhor NASCAR dos consoles modernos

NASCAR 26 ainda não é o equivalente para consoles do iRacing.

Provavelmente nem deveria tentar ser.

Um produto exige assinatura, equipamento especializado e dedicação. O outro precisa permitir que alguém pegue um DualSense, escolha Kyle Larson, entre em Daytona e comece a correr.

O mérito da iRacing Studios está justamente em entender essa diferença.

A empresa não simplesmente colocou seu simulador dentro de uma embalagem mais acessível.

Em vez disso, utilizou parte do enorme conhecimento adquirido durante décadas de desenvolvimento de simulação — além de dados, pistas digitalizadas, modelos e experiência direta com a própria NASCAR — para construir um jogo pensado para outra audiência.

Há também uma curiosa continuidade histórica nisso tudo.

A iRacing foi fundada por Dave Kaemmer, um dos nomes por trás dos lendários simuladores NASCAR Racing da Papyrus nos anos 1990 e início dos anos 2000. A empresa posteriormente adquiriu a Monster Games, responsável por NASCAR: Dirt to Daytona e por parte da geração NASCAR Heat.

Agora essas duas linhagens estão, de certa maneira, dentro da mesma empresa.

NASCAR 26 ainda não consegue reunir tudo que existia de melhor em cada uma delas.

Mas chega mais perto.

Heat 5 continua tendo méritos como jogo acessível e recheado de conteúdo. Dirt to Daytona permanece uma referência nostálgica de carreira. Os antigos NASCAR Racing da Papyrus foram revolucionários como simuladores.

NASCAR 26 encontra seu próprio espaço entre eles.

Não é o jogo definitivo da NASCAR, e alguns problemas herdados do ano passado mostram que a iRacing Studios ainda tem trabalho pela frente.

Mas depois de uma década bastante irregular — e de um fundo do poço chamado NASCAR 21: Ignition — a franquia finalmente parece ter novamente uma direção clara.

No PlayStation 5, NASCAR 26 é hoje a melhor maneira de experimentar a NASCAR sem entrar no universo muito mais complexo do sim racing de PC.

E talvez seu maior mérito seja justamente fazer com que, depois de algumas dezenas de voltas, correr em círculos deixe de parecer algo simples.

Nota: 8/10

Pontos positivos
• Excelente comportamento dos carros
• Novo modelo de pneus e frenagem
• Pista dinâmica acrescenta profundidade às corridas
• Ótima experiência mesmo utilizando o DualSense
• Quatro categorias da NASCAR
• IA muito superior aos jogos da geração Ignition
• Crossplay entre PS5, Xbox Series e PC
• Pistas beneficiadas pelos dados e ativos da iRacing
• Peak Performance ajuda novos jogadores a entender a NASCAR

Pontos negativos
• Modo carreira ainda poderia ser muito mais vivo
• Alguns problemas de IA, boxes e bandeiras permanecem
• Modelo de danos é limitado
• Visual não está entre os melhores da atual geração
• Para donos de NASCAR 25, as novidades podem parecer incrementais