Sem corrida Sprint, etapa americana terá três treinos livres pela primeira vez desde 2023; equipes ganham mais tempo para trabalhar no acerto dos carros e avaliar pneus em um dos circuitos mais variados do calendário
O GP dos Estados Unidos de Fórmula 1 de 2026, que será disputado entre os dias 23 e 25 de outubro, no Circuito das Américas, em Austin, terá uma mudança importante em relação às últimas edições. Depois de três temporadas consecutivas com o formato Sprint, a etapa americana volta à programação tradicional, com três treinos livres, classificação no sábado e corrida no domingo. A alteração oferece às equipes mais tempo para trabalhar no equilíbrio dos carros, avaliar o comportamento dos pneus e preparar suas estratégias para um circuito que reúne características bastante diferentes ao longo de seus 5,513 quilômetros.
A mudança acontece em um momento importante da temporada, com a Fórmula 1 entrando na sequência de três corridas consecutivas no continente americano. Depois de Austin, o campeonato seguirá para a Cidade do México e São Paulo, antes de retornar aos Estados Unidos para a etapa de Las Vegas.
Em Austin, a programação tradicional permitirá que pilotos e engenheiros utilizem as sessões de sexta-feira e sábado para aprofundar o trabalho de preparação. No formato Sprint, as equipes contam com apenas um treino livre antes do início das atividades competitivas, o que limita as oportunidades de testar configurações diferentes e compreender o comportamento do carro em condições variadas.
Com três sessões disponíveis, será possível realizar avaliações mais extensas de equilíbrio aerodinâmico, comportamento dos pneus e desempenho em sequências longas de voltas. Esse trabalho ganha importância especial no Circuito das Américas, onde as características dos diferentes setores exigem soluções que nem sempre são compatíveis entre si.
Austin exige equilíbrio entre velocidade e carga aerodinâmica
Uma das principais dificuldades do Circuito das Américas está na variedade de curvas e trechos de alta velocidade. A pista americana combina uma longa reta, mudanças rápidas de direção, curvas de baixa velocidade e zonas de frenagem intensa, exigindo que os carros apresentem bom desempenho em situações bastante distintas.
O primeiro setor começa com a forte subida até a curva 1, uma das imagens mais características do circuito. Depois da frenagem no topo da elevação, os pilotos enfrentam uma sequência de curvas rápidas que exige estabilidade, precisão nas mudanças de direção e boa resposta aerodinâmica.
Nesse trecho, um carro com comportamento instável pode perder tempo em várias curvas consecutivas. Por outro lado, utilizar carga aerodinâmica excessiva pode comprometer a velocidade nas retas, onde a eficiência também é fundamental para o tempo de volta e para as disputas por posição.
O segundo setor apresenta uma combinação de trechos rápidos e frenagens, incluindo uma das principais retas do circuito. A velocidade máxima ganha importância, mas precisa ser acompanhada por estabilidade suficiente para enfrentar as curvas seguintes.
Já o terceiro setor exige características diferentes. As curvas mais lentas colocam maior ênfase na tração e na capacidade de acelerar sem provocar deslizamento excessivo dos pneus traseiros.
Essa variedade obriga as equipes a buscar um compromisso entre carga aerodinâmica, velocidade de reta e comportamento mecânico. Um acerto especialmente eficiente em determinado setor pode representar uma desvantagem em outro.
Segundo a análise técnica da Pirelli, o Circuito das Américas não exige compromissos particularmente extremos, mas encontrar a configuração mais eficiente continua sendo uma tarefa importante, especialmente com as características da geração de carros utilizada em 2026.
Mais treinos permitem explorar diferentes configurações
O retorno ao formato tradicional amplia as possibilidades de preparação ao longo do fim de semana.
Na sexta-feira, as equipes poderão utilizar o TL1 para realizar verificações iniciais e estabelecer uma referência de comportamento do carro. O TL2 oferecerá outra oportunidade para comparar configurações, avaliar os pneus e realizar simulações de corrida.
No sábado, o TL3 permitirá ajustes finais antes da classificação, quando o desempenho em uma volta rápida se tornará a principal prioridade.
Essa distribuição oferece maior flexibilidade para os engenheiros, que poderão analisar os resultados das primeiras sessões antes de definir os próximos passos.
Em um fim de semana Sprint, a necessidade de encontrar rapidamente uma configuração competitiva reduz a margem para experimentações. Em Austin, as equipes terão mais oportunidades para corrigir problemas de equilíbrio, comparar soluções aerodinâmicas e compreender como o comportamento do carro muda entre uma volta rápida e uma sequência prolongada.
Isso não significa que o trabalho será simples. As condições da pista e as temperaturas podem variar entre as sessões, tornando necessário interpretar os dados com cuidado para evitar conclusões baseadas em circunstâncias diferentes.
Ainda assim, a programação tradicional representa uma vantagem importante para equipes que precisem aprofundar a compreensão do comportamento de seus carros.

Avaliação dos pneus será parte fundamental da preparação
Além do acerto aerodinâmico, o tempo adicional de treinos será importante para compreender os pneus escolhidos pela Pirelli para o GP dos Estados Unidos.
A fabricante italiana selecionou os compostos C2 (Duro), C3 (Médio) e C4 (Macio), retomando uma combinação consecutiva depois da experiência de 2025, quando o C1 foi utilizado como opção mais resistente.
Na edição anterior, o composto Duro não foi utilizado durante a corrida, enquanto a maioria das equipes preferiu estratégias de apenas uma parada com os pneus Médio e Macio.
Para 2026, a presença do C2 poderá tornar o pneu mais resistente uma alternativa mais atraente, especialmente para períodos prolongados de utilização.
As três sessões de treinos livres permitirão comparar o desempenho dos compostos e avaliar sua durabilidade em diferentes condições.
Esse trabalho será particularmente importante porque Austin exige bastante dos pneus dianteiros e traseiros.
No primeiro setor, as curvas rápidas e mudanças de direção submetem os pneus dianteiros a cargas laterais elevadas. No terceiro, as acelerações na saída das curvas mais lentas podem aumentar a temperatura dos pneus traseiros e provocar degradação térmica.
A Pirelli também destaca que o desgaste físico da borracha poderá ser mais relevante do que a formação de graining, especialmente em razão das características do asfalto.
Um trecho entre as curvas 9 e 11 foi recapeado no início de 2026, mas o envelhecimento do restante da superfície continua contribuindo para níveis elevados de desgaste.
Com mais tempo de preparação, as equipes poderão investigar esses fatores antes de definir a estratégia de corrida.
Formato tradicional reduz incertezas, mas não elimina desafios
O retorno aos três treinos livres também modifica a maneira como as equipes administram os riscos durante o fim de semana.
Em eventos Sprint, problemas encontrados na única sessão de treinos podem comprometer parte importante da preparação. A necessidade de tomar decisões rapidamente aumenta a possibilidade de chegar às atividades competitivas sem compreender completamente o comportamento do carro.
No formato tradicional, existe mais tempo para identificar dificuldades e testar correções.
Essa diferença pode ser especialmente relevante em um circuito como Austin, onde a combinação de curvas rápidas e lentas exige um equilíbrio cuidadoso.
Entretanto, a maior quantidade de informações não garante que todas as equipes encontrarão a configuração ideal. O desempenho dependerá da qualidade das avaliações, da capacidade de interpretar os dados e da eficiência das soluções disponíveis em cada carro.
As temperaturas normalmente elevadas do Texas também poderão influenciar o comportamento dos pneus e modificar as condições entre os treinos e a corrida.
Outro fator será a evolução da pista. Embora o Circuito das Américas apresente níveis geralmente bons de aderência, auxiliados pela presença de categorias de apoio, a Pirelli observa que a evolução das condições do asfalto tradicionalmente não está entre as mais acentuadas do calendário.
Preparação pode fazer diferença na corrida
A expectativa inicial da Pirelli é de que o GP dos Estados Unidos seja disputado predominantemente com uma parada nos boxes. A escolha dos compostos e a duração dos stints, entretanto, dependerão diretamente das informações coletadas durante os treinos.
O tempo estimado de perda em uma passagem pelos boxes é de aproximadamente 21,5 segundos, fator que incentiva as equipes a evitar uma segunda parada sempre que o desgaste permitir.
Encontrar um acerto que preserve os pneus sem comprometer excessivamente a velocidade poderá ser decisivo para completar as 56 voltas com eficiência.
Nesse cenário, o retorno ao formato tradicional oferece às equipes a oportunidade de construir uma preparação mais detalhada, comparando diferentes configurações e avaliando o comportamento dos pneus antes da definição das estratégias.
Depois de três edições consecutivas com corrida Sprint, Austin volta a oferecer uma programação em que o trabalho de desenvolvimento e análise ocupa maior espaço antes da classificação.
A mudança pode não produzir diferenças tão visíveis quanto uma alteração no regulamento ou na escolha dos compostos, mas poderá influenciar diretamente a competitividade ao longo do fim de semana.
Em um circuito que exige velocidade nas retas, estabilidade nas curvas rápidas e boa tração nos trechos mais lentos, encontrar o equilíbrio correto será fundamental.
E, em 2026, as equipes terão três sessões de treinos livres para tentar chegar à melhor resposta antes da largada do GP dos Estados Unidos.
