A decisão da Fórmula 1 de levar a categoria de volta à África enfrenta críticas da República Democrática do Congo (RDC). O país afirma ter alertado a direção da F1 sobre os riscos de realizar uma corrida em Ruanda, país acusado de apoiar o grupo rebelde M23 no conflito que atinge o território congolês.
A ministra das Relações Exteriores da RDC, Thérèse Kayikwamba Wagner, revelou que procurou Stefano Domenicali, CEO da categoria, em fevereiro de 2025, antes da conclusão do acordo: “Em fevereiro de 2025, alertei Stefano Domenicali e as autoridades da F1 que permitir que Ruanda sediasse um Grande Prêmio seria moralmente indefensável”, disse ela ao The Athletic.
Segundo as Nações Unidas, milhares de soldados ruandeses atuam ao lado do M23 no leste do Congo. O Conselho de Segurança da ONU exigiu a retirada das tropas, enquanto os combates já provocaram o deslocamento de mais de sete milhões de pessoas no país, sendo mais de 2,5 milhões em Kivu do Norte.
Investigações da ONU e da Global Witness também apontaram que minerais retirados de áreas congolesas controladas por rebeldes seriam contrabandeados para Ruanda e incorporados às exportações oficiais. O governo ruandês nega as acusações, assim como qualquer apoio militar ao M23, e afirma agir para combater a milícia FDLR.

Para Wagner, receber a Fórmula 1 pode ajudar o presidente Paul Kagame a melhorar sua imagem internacional em meio às denúncias. “A RDC saúda o retorno da Fórmula 1 à África, mas dar a Paul Kagame essa plataforma ajudaria a polir a imagem de um líder autoritário cujo governo ajudou a alimentar uma guerra devastadora em nosso país”, afirmou a ministra.
Wagner pediu que a organização estabeleça garantias para evitar qualquer ligação entre a corrida e a exploração de recursos naturais congoleses: “Esta também é uma oportunidade para a F1 mostrar ao seu público e aos seus apoiadores o que o esporte realmente representa. Deveria exigir garantias credíveis e independentes de que nenhum dinheiro usado para sediar a corrida venha de minerais ligados a conflitos ou da exploração de recursos congoleses.”
Apesar das críticas, o projeto segue previsto para 2030. O acordo tem duração de dez anos e prevê um circuito permanente de grau 1 da FIA em Bugesera, a cerca de 40 quilômetros ao sul da capital Kigali. O traçado está sendo desenvolvido pelo escritório de Hermann Tilke em parceria com Alexander Wurz. Os custos de construção e as taxas para receber a corrida não foram divulgados.
A F1 justifica a iniciativa como parte de seu objetivo de realizar provas em todos os continentes habitados. A categoria também destaca o potencial de um mercado com mais de 100 milhões de fãs africanos e os possíveis benefícios econômicos, turísticos e de infraestrutura para a região.
