Categoria estréia misturando Fórmula 1 e NASCAR

Disposta a acelerar o processo de crescimento que vem experimentando desde o início da década, a Stock Car foi buscar na Fórmula 1 e na Nascar as idéias para não cair na mesmice. Da principal categoria do automobilismo mundial pegou emprestado o sistema de superclassificação; da série na qual se inspirou foi buscar a pluralidade de marcas e os “playoffs”, conceito que nem foi implantado e já provoca polêmica. As teorias serão colocadas em prática neste fim de semana em Interlagos, que recebe a primeira das 12 etapas da temporada 2006.

Atual bicampeão, Giuliano Losacco (Medley) estará na alça de mira dos demais 37 pilotos a cada prova. Aliás, essa é outra novidade introduzida pelos promotores: o grid máximo de 38 carros – a expectativa é que cinco caiam na peneira dos treinos oficiais da sexta-feira. Losacco é uma das vozes contrárias ao novo sistema classificatório. Os carros serão divididos em dois grupos e apenas os 10 mais velozes disputarão a pole em sessão única de 10 minutos no sábado. “O tráfego poderá ser um problema sério nos circuitos menores, como Londrina e Tarumã, e transformar os treinos em loteria. Nem sempre os mais rápidos estarão na superclassificação. O formato antigo, com grupos de três ou quatro pilotos e duas voltas lançadas para cada, era mais justo”, compara.

Antes mesmo da abertura do campeonato, já se sabe que os “playoffs” poderão produzir distorções graves. Os pontos serão computados até à oitava etapa. A partir daí, somente os 10 melhores na classificação disputarão o título nas quatro corridas finais e já com uma nova pontuação. É o mesmo modelo da Nascar, mas com uma diferença fundamental: o calendário da categoria americana é composto de 36 etapas. Os playoffs são iniciados após a 26ª, enquanto a Stock Car eliminará a maioria da disputa depois de apenas oito provas. Imagine-se que um piloto fique fora dos “Top Ten” por apenas um ponto e vença ou pelo menos chegue regularmente no pódio nas quatro corridas finais, que no seu caso decidiriam apenas as colocações de 11º para trás. Este piloto poderia terminar o campeonato com mais pontos que o campeão. Losacco, registre-se, conquistou o título de 2005 graças ao excelente desempenho nas últimas quatro provas, quando descontou a vantagem de 55 pontos favorável a Cacá Bueno.

A reviravolta de Losacco é provavelmente caso único na história do automobilismo mundial. Ele passou o ano inteiro atrás de Cacá, que comandou a classificação desde a primeira etapa. Considerando-se que até o momento da bandeirada final Cacá era ainda o ponteiro do campeonato, Losacco foi campeão pela segunda vez depois de liderar por apenas 494 milésimos de segundo, espaço de tempo que separou a sua terceira colocação da quarta de Cacá na derradeira prova.

Losacco e Cacá, vice nos últimos três anos, estão novamente entre os favoritos, mas o bicampeão diz que não haverá uma polarização nas pistas. “Há muita gente boa com chances de ganhar o campeonato, talvez de 15 a 20 pilotos”, acredita. Com 28 anos de idade, Losacco busca uma vaga entre o seletíssimo elenco de tricampeões da Stock Car. Em seus 27 anos de existência, apenas quatro nomes conquistaram o título por três oportunidades: Ingo Hoffmann, 12 vezes campeão, o tetra Paulo Gomes e Chico Serra, vencedor de 1999 a 2001. Ângelo Giombelli foi campeão de 1991 a 1993, mas correndo em parceria com Ingo. Entre os pretendentes de 2006 pode ser incluído o companheiro de equipe de Losacco. A Medley refez totalmente o carro de Guto Negrão e a fraca campanha passada dificilmente se repetirá. “Foi meu pior ano desde que estreei na Stock Car em 2000. Sempre fiquei entre os 10 primeiros e sei que é lá que voltarei a andar”, garante. Luciano Burti, agora na Petrobras Action Power, Ingo (AMG), Hoover Orsi (NarsCastroneves) e o ascendente Ruben Fontes (JF), entre outros, também são boas apostas.

Depois da estréia da Mitsubishi no ano passado, agora é a vez de a Volkswagen chegar à categoria com a “cara” do Bora, cuja carroceria será vista em até 10 carros neste primeiro ano. O conceito de multimarcas talvez represente exagero, já todos os demais componentes, do chassi tubular ao motor V8 de 465 cavalos e os pneus Pirelli, são rigorosamente iguais para todos. Igual, no entanto, pode não significar que apresentem o mesmo rendimento. Na avaliação de Andreas Mattheis, diretor-técnico da Medley, uma das equipes que utiliza a “casca” do Chevrolet Astra, o Mitsubishi Lancer ganhou velocidade depois de submetido a uma cirurgia plástica que lhe roubou nove centímetros na largura. A maior ameaça, no entanto, pode vir da Volkswagen. “O Bora tem potencial para ser o carro mais veloz da categoria. Nos treinos desta semana em Interlagos, era três quilômetros mais rápido nas retas”, alerta Mattheis, já preparando uma contra-ofensiva. “Se esses números se mantiverem, os ajustes nas carrocerias serão inevitáveis.”

Além da terceira montadora, outra novidade é a liberação parcial da telemetria. O sistema aceito pelos organizadores permitirá a coleta de dados como velocidade, temperatura da água, óleo, pressão do combustível, pressão do óleo do motor, posição do acelerador, do volante, tempo de volta, tensão da bateria e aceleração lateral e linear. Nem todas as equipes, contudo, pretendem utilizá-la. Algumas por não enxergarem tantos benefícios e outras para não onerar ainda mais o orçamento com a aquisição do equipamento e contratação de profissional especializado.

A exemplo de 2005, a TV Globo concentrará as transmissões ao vivo no final do calendário. A exceção será a terceira etapa, ainda marcada para o Rio de Janeiro, mas que poderá ser transferida para Campo Grande por causa das obras que transformarão o autódromo de Jacarepaguá numa das subsedes dos Jogos Pan-Americanos de 2007. A prova deste domingo irá ao ar pelo SporTv a partir das 13 horas.