Por Luís Morais
Muitas brincadeiras podem passar a tomarem rumos de seriedade. Essa frase, crua e seca, pode definir bem o que vem acontecendo com o automobilismo virtual. A época de se juntarem alguns amigos, sejam eles “reais ou virtuais”, para um simulador on-line de corridas ainda existe, porém é cada vez menor no espaço de ligas que vêm se fortalecendo.
A maioria dessas ligas, talvez até mesmo todas, nasceram daquele propósito de amigos se reunirem para se divertirem. Acontece que, algumas dessas reuniões, passaram a ser mais constantes, e o número de interessados cresceu. E o que era apenas uma corrida semanal na tarde de domingo, se transformou em diversas corridas na semana com diferentes estilos de carros para a simulação.
Enfim, o automobilismo virtual passa a tomar ares de concretude. Patrocinadores, transmissões ao vivo, ligas organizadas com diversos pilotos, equipes e categorias, e servidores dedicados a prática dessa simulação cresceram, se firmaram, e hoje chegam a assustar quem não acredita no sucesso desse ramo. Também some o estereótipo de “jogo de nerd”. Há casos hoje de pilotos profissionais no universo virtual. Além de pilotos profissionais de campeonatos de “verdade” que se aventuram nessas simulações.
Não é só diversão, é trabalho.
A cada dia vem crescendo mais e mais o interesse de pessoas que querem entrar nas ligas virtuais. Porém, mal sabem elas do trabalho em que há para manter competições ocorrendo com tranquilidade para seus pilotos. A burocracia, as finanças, a manutenção de calma e companheirismo entre os participantes, enfim, diversos itens, independentes de seu tamanho, podem tornar algo prazeroso até mesmo em desgastante.
A liga que se destaca em numerosidade de categorias, certamente é a F1BC. Em sua terceira temporada desse ano de 2010, haverá 13 categorias, que possuem espaço para 35 pilotos. Como há a permissão de um mesmo participante ingressar em mais de uma – porém, há um sistema de licenças que nivelam tais categorias – já houve lotação de quase todas as vagas. São aproximadamente 300 pilotos inscritos, entre jovens, adultos, crianças e idosos. E também algumas presenças femininas, nesse universo machista em que se transformou o automobilismo.
Rodrigo Wizard, que é o chefe da organização da F1BC, comentou sobre o tempo que se leva para ajeitar a estrutura da liga: “eu levo o F1BC como minha principal atividade, todo o tempo que disponho de trabalho é direcionado aos esforços com o F1BC. Com isso, minha atividade de jornalista (especializado em automobilismo) ficou em segundo plano”.
Além do esforço temporal, há também o financeiro. Muitos questionam as taxas de inscrição. Mas como relatou Wizard, há custos “com toda a estrutura, que vai desde o site e fórum até os servidores dedicados, transmissões ao vivo, troféus e outras tecnologias”.
Essas dores de cabeça certamente devem se alastrar a outras ligas, como a Brasil SimDrivers e a CBAV. Mas não é somente um que organiza tudo. No caso da própria F1BC, aparecem com força na organização os nomes de Carlos Cunha (publicitário) e André Chiara (comerciante). Além deles, há outros organizadores, e também a ajuda dos próprios pilotos. Isso também se espalha para as outras ligas.
Os profissionais também se divertem
Certamente não é do cotidiano de um estudante, engenheiro, médico, jornalista, professor, enfim, de alguém que queira se aventurar em correr virtualmente com seus amigos, encontrar um piloto profissional no mesmo servidor, correndo “do seu lado” na pista.
Exemplos disso aconteceram neste ano. Felipe Nasr, campeão da F-BMW em 2009, e que hoje corre na F3 Britânica, já foi visto em servidores on-line. Marcos Gomes e Fábio Carreira, com trajetórias consolidadas no automobilismo brasileiro (o primeiro foi vice-campeão da Stock Car em 2008, o segundo já foi campeão da Copa Vicar, a Stock Light, no mesmo ano) participaram de corridas oficiais no F1BC.
Carreira foi o mais ativo. Chegou a inscrever sua própria equipe, a FC Sports, para participar regularmente em alguns campeonatos. Ele comentou sobre como o automobilismo virtual lhe atraiu: “Como sou apaixonado pelo automobilismo, estar correndo nas pistas é uma profissão. Poder correr no automobilismo virtual, quando não estou em final de semana de corrida, é muito bom, pois acabo treinando concentração e reflexo. Fora isso, sempre juntamos amigos e treinamos, o que acaba sendo muito legal”.
Além do atrativo, Fábio Carreira disse também sobre a grande diferença entre o automobilismo real e o virtual: “No automobilismo virtual não temos a Força G. Isso acaba tendo algumas reações diferentes em questão de freiada, curva e aceleração, mas no resto muitas coisas são parecidas ao automobilismo real. Você treinando por um simulador ajuda muito no conhecimento de pistas, caso não as conheça, e aperfeiçoar cada vez mais algumas técnicas para testar no real.”
A profissionalização da própria brincadeira.
Há também outro tipo de profissionalização – aquele que inicialmente corria por diversão, hoje por trabalho. Vários pilotos, por conta da expressividade de seus resultados, passaram a contar com patrocínio para correrem. Empresas como lan-house, pequenos comércios, e lojas voltadas ao mundo informático passaram a investir em pilotos e equipes para expor suas marcas nas transmissões.
Em alguns casos, poderá haver uma cobrança de resultados. Exemplos disso são as equipes Alliance GP e Vakuum. Ambas assinaram patrocínio de peso para o final do ano de 2010.
Esse interesse em estampar sua marca nos carros vem do crescimento e profissionalização de alguns veículos da internet, que vem transmitindo as corridas virtuais. Um carro andando na frente passa a ser observado por dezenas de espectadores.
Renato Zanetti, hoje chefe da Alliance – criada junto com o Fabrício Magri no final de 2009 – não esperava que a equipe fosse tão longe. Com a conquista de títulos logo na temporada de estreia (Daniel Krauze na “Turismo Classic”, Magri vice-campeão na “Turismo Junior”, mesma categoria onde a Alliance foi campeã de construtores) a expansão foi necessária. Para a temporada seguinte, houve a contratação de mais de 10 pilotos, entre novatos e experientes.
“Nós passamos horas, dias, várias madrugadas, treinando pras corridas, fazendo reuniões sobre melhorias individuais e na equipe. Tudo isso, no meu caso, é paralelo ao meu trabalho e ao meu casamento, e você tem que dar um jeito de conciliar tudo isso. É necessário jogo de cintura.” – observa Zanetti sobre sua rotina.
Todo o esforço foi recompensado. A Shutt, empresa de equipamentos de carros de rua, se mostrou interessada em colaborar com a Alliance. Para isso, houve um trabalho árduo de procura, como salienta Renato: “Comecei a ensaiar alguns contatos com empresas. Foram muitas respostas negativas, muitos e-mails ignorados, mas em determinado momento, um amigo (Marcelo) me deu a ideia de procurar a Shutt. Consegui o contato do marketing deles, e enviei-lhes um e-mail, explicando um pouco da Alliance e nossos objetivos, e usando a Ghost (que hoje tem o patrocínio da Sparco) como exemplo de sucesso no automobilismo virtual. Quando obtive resposta, negociamos tranquilamente, e no final deu tudo certo.”
Outra equipe com patrocínio de peso para esse final de 2010 é a Vakuum. A Mercedes-Benz, montadora de peso no mercado automobilístico, passou a expor sua marca nos carros da equipe chefiada por Ronan Mendina. O próprio comentou como foi a negociação: “surgiu uma ideia entre os membros da equipe, e fomos atrás ‘tentar a sorte’. De início foi bem complicado, entramos em contato com alguns representantes, uns responderam sem interesses, outros sequer responderam… apenas um demonstrou empolgação com a ideia. A nossa sorte foi ter encontrado o cara certo.”
A dificuldade não parou por ai. Mendina observou outro ponto complicado: “a reunião foi o mais difícil. Foram sempre sérios e praticamente sem reação alguma. Não dava para saber se estavam gostando ou não.”
A Vakuum-Mercedes e a Alliance-Shutt são somente alguns exemplos de sucesso no automobilismo virtual. Que começa a ter rumos de seriedade, e não apenas uma diversão. Mas o ramo nunca cresceria se as pessoas não se divertissem. Eis o grande ponto do sucesso.