A pauta da diversidade e inclusão tem sido amplamente divulgada e debatida nos últimos anos dentro do esporte a motor. Cada vez mais é possível ver pilotos e equipes tocando no assunto e se mostrando preocupados com o tema importante e tão atual.
Apesar de um longo caminho ainda precisar ser percorrido, felizmente os primeiros passos estão sendo dados. Quando o assunto é abertura para o novo, vemos cada vez mais mulheres, por exemplo, ocupando espaços e papeis tanto dentro quanto fora das pistas.
Com uma abertura cada vez maior do automobilismo mundial, chegou também a hora de entender como está o cenário para as garotas dentro do país. Binho Carcasci, por exemplo, é um grande nome para alavancar as garotas, pois se tornou o novo presidente da Comissão Nacional de Kart na CBA e, portanto, a base de tudo.
Quem também entende muito do assunto é Bia Figueiredo, um dos principais nomes do país nas pistas. A competidora tem grandes feitos do esporte a motor, como ser a primeira e única mulher a ter vencido na Indy Lights, categoria de base da Indy, além de ter competidor em provas da Indy, inclusive nas 500 Milhas de Indianápolis.
No Brasil, tem passagens de temporadas completas na Stock Car, provas pela Porsche Cup – inclusive, em 2021, correu em uma equipe totalmente feminina ao lado de Carol Aranha e Bruna Tomaselli -, e neste ano disputa a TCR South America.

Mas olhando para trás, o caminho nunca foi fácil para Bia. “As principais dificuldades, para mim mulher, menina, acho que foi que ninguém dava credibilidade para mim. Quando falava que estava começando a correr de kart, certas pessoas diziam que era coisa de homem, perguntavam se mulher poderia chegar à F1, à Indy, e sempre retrucava dizendo claro que podia, coisa de criança confiante”, contou em papo ao F1Mania.net.
“Mas também tem a parte financeira, é um esporte muito caro. Não posso reclamar da minha infância, meus pais sempre me deram tudo, escolas maravilhosas, curso de inglês, viagens, kart que, aos trancos e barrancos, meu pai sempre conseguiu ir levando até que quebrou”, continuou.
“Então, Xande Negrão e a Medley me ajudaram a dar continuidade até o final até ir para a Fórmula Renault quando o André Ribeiro e o Augusto Cesário decidiram me apadrinhar e arrumaram os patrocínios necessários para eu sair do kart e ir para a Fórmula Renault. Mas não só nesse início, mas na carreira toda, independente de ser homem ou mulher, a parte financeira é a maior barreira no automobilismo”, completou.
Mas é inegável que o interesse por meninas no esporte a motor, e não apenas em assistir, está cada vez mais crescente. Mais pilotas começam dentro do kart e um grande exemplo disso foi a edição de 2021 do Brasileiro de Kart, que contou com a maior presença de sua história de competidoras.
Falando sobre o caso, Binho apontou ao F1Mania.net que “o Campeonato Brasileiro do ano passado teve recorde de inscritos no geral, natural que o número de participantes mulheres crescesse também, mas foi uma boa surpresa ser tão bom assim.”
“A cada ano, em várias modalidades, a presença feminina vem aumentando e os exemplos de outras atletas é um fator incentivador também. No Brasil, vejo que a divulgação do esporte a motor tem crescido, assim como o espaço para as nossas pilotas na mídia”, seguiu.

“No Brasileiro de Kart e em outros eventos que temos organizado, sempre fazemos questão de destacar o número de kartistas mulheres, para incentivar ainda mais. E prova deste interesse da mídia é que tivemos uma matéria num dos programas de esporte de maior audiência da TV aberta só com as meninas que estavam no Beto Carrero”, emendou.
E Bia concordou com o discurso do dirigente, afirmando que vê mais pilotas entrando no mundo do automobilismo, e aproveitou para pontuar alguns dos motivos que crê para que isso esteja acontecendo. “Vejo mais meninas começando, as famílias estão mais abertas para colocar suas filhas para correr”, disse.
“Estou muito feliz que temos mais meninas, ano passado provavelmente foi o ano que se teve mais mulheres no brasileiro de Kart, algo muito, muito legal, temos de continuar crescendo. Só tendo uma base com muitas meninas que vamos achar aqueles grandes talentos que conseguem subir e ter a chance de ir ao automobilismo mundial”, continuou.
“Hoje o mundo está mais aberto, não existe mais essa crítica, essa falta de credibilidade com as meninas. As pessoas agora até apoiam mais porque acham mais legal e etc. Na minha época, sentia que o maior preconceito vinha das próprias mulheres, algo que achava horrível”, opinou.
“Desde que voltei da Indy, que vim correr na Stock Car no Brasil, senti que isso começou a mudar, as mulheres começaram a torcer por mim por ser algo diferente. Acho que hoje as mulheres estão se ajudando, se incentivando muito, acho que é uma das grandes diferenças que vejo hoje”, completou a competidora.
Por parte de Binho, o aumento de mulheres envolvidas no esporte tem sido algo notável não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. O presidente comentou como iniciativas globais como a W Series, categoria exclusivamente feminina, e programas da FIA, como o Girls on Track, têm incentivado e promovido a entrada de pilotas
“As redes sociais ajudam muito nesse sentido. Cada uma das meninas que participa e divulga em suas redes seus feitos, acaba motivando outras a andarem de kart também. Elas mostram que estão ali correndo de igual para a igual e que é possível quebrar barreiras. Além disso, o fato de nos últimos dois anos o Brasil ter representantes nas finais do FIA Girls on Track também ajudou muito”, disse ao F1Mania.net.
“O programa da FIA e mais a W Series são relativamente novos, mas têm se mostrado uma boa porta de entrada no esporte para as mulheres, o que incentiva o sonho de muitas delas em seguir carreira nas pistas depois do kart. Os programas de montadoras/equipes também já começam a dar espaço para uma representante feminina. Ainda é o começo, mas são ações que ajudam muito e incentivam”, continuou.
Inclusive, ainda no assunto sobre a FIA, Carcasci destacou como Julia Ayoub, duas vezes finalista do Rising Stars, e Antonella Bassani, finalista na primeira edição, também servem de inspiração para que jovens kartistas busquem seguir seus sonhos para irem cada vez mais longe.
“Elas tiveram grandes resultados no FIA Girls on Track, com chances de entrar para a Academia da Ferrari, e isso promove muito. Claro que as duas são muito dedicadas e talentosas, mas com tantas pilotas do mundo todo, você ter duas brasileiras nas fases finais também mostra a força do esporte em nosso país”, sublinhou.
Recentemente, Bia Figueiredo foi nomeada pela CBA para a Comissão de Mulheres no Automobilismo da FIA. No papel que passa a desempenhar, antes ocupado por Fabiana Ecclestone, vai server como modelo e inspiração para atrair novas garotas ao esporte, além de tomar medidas efetivas contra qualquer tipo de preconceito.
E a pilota já espera poder usar também sua influência para ajudar a fomentar ainda mais as categorias de base e em especial as meninas, aqui no país. “Acho que tem de incentivar, tem de começar de algum lugar, qualquer incentivo é importante. A CBA me chamou no ano passado para ser coordenadora do FIA Girls on Track e já comecei a discutir bastante com o Giovani Guerra [presidente da CBA] e o Carcasi formas de incentivar meninas para competirem nos grandes campeonatos”, falou.
“É uma forma de começar a olhar aquelas que têm mais destaque, ou as famílias entenderem que nosso automobilismo está aberto e incentivam as meninas a começarem, além de projetos que fiz com a Porsche no ano passado de ter uma equipe totalmente feminina, mecânicas, engenheiras, isso tudo é muito importante, o automobilismo não é só o piloto, tem toda uma equipe”, seguiu ao F1Mania.net.

“Já vimos muitas mulheres nas partes administrativas, financeiras, de relacionamento, PR, assessora, promotoras, mas poucas que ainda tocam o carro, mecânicas, engenheiras, pilotas. Precisamos fazer um esforço para abrirmos portas e darmos mais oportunidades para as mulheres em todos os setores do automobilismo”, destacou.
E para finalizar, Binho comentou sobre a possibilidade de uma categoria de kart exclusivamente para a preparação das novas pilotas. “Há uma grande discussão em torno disso. Em princípio, e especialmente no kart, não precisaria haver distinção entre homens e mulheres. Elas têm total capacidade de andarem com os homens e ter os mesmos resultados, mas pode-se pensar, em alguns casos, que uma categoria feminina poderia ser a porta de entrada para algumas delas”, encerrou.
