Uma reunião marcada para janeiro expõe o primeiro grande conflito técnico da nova era da Fórmula 1 — e coloca Red Bull e Mercedes no centro de uma discussão que pode redefinir o equilíbrio de forças já em 2026.
A Fórmula 1 ainda nem colocou seus carros de 2026 na pista, mas os bastidores já fervem. A FIA confirmou uma reunião com os cinco fabricantes de motores da categoria — Audi, Ferrari, Honda, Mercedes e Red Bull Ford Powertrains — para tratar de um ponto sensível do novo regulamento: a taxa de compressão dos motores.
A reunião acontece no dia 22 de janeiro, apenas quatro dias antes do primeiro teste coletivo da nova geração de carros, em Barcelona. E o timing não é coincidência. O tema ganhou urgência após surgir a informação de que Mercedes e Red Bull teriam encontrado uma brecha no regulamento, capaz de gerar vantagem de desempenho já na largada do novo ciclo técnico.
O ponto técnico: onde nasce o conflito
O regulamento de 2026 estabelece uma nova filosofia para as unidades de potência: motores V6 híbridos com divisão 50/50 entre potência elétrica e combustão, substituindo o antigo modelo 80/20. No texto, a FIA define um teto de 16:1 para a taxa de compressão — mas sem detalhar se esse limite vale em todas as condições operacionais.
É justamente aí que entra a interpretação controversa. Segundo relatos de bastidores, Mercedes e Red Bull teriam desenvolvido motores que respeitam o limite de 16:1 em temperatura ambiente, mas que ultrapassariam esse valor quando o motor atinge sua temperatura ideal de funcionamento. Na prática, isso permitiria mais potência e melhor eficiência energética em corrida.
O risco, segundo a própria FIA, não é pequeno. O diretor de monopostos da entidade, Nikolas Tombazis, chegou a classificar essa abordagem como potencialmente “suicida”, caso o entendimento seja posteriormente vetado.
Red Bull no centro da polêmica
Para a Red Bull, o tema ganha um peso ainda maior. A equipe entra em 2026 com seu primeiro motor produzido internamente, em parceria com a Ford, encerrando a era Honda. Qualquer vantagem inicial tem valor estratégico enorme — não apenas esportivo, mas simbólico.
É por isso que o movimento incomodou concorrentes. Audi, Ferrari e Honda enviaram uma carta formal à FIA, pedindo esclarecimentos imediatos sobre a interpretação da regra. A leitura dessas fabricantes é clara: se a brecha for mantida, a Red Bull pode iniciar a nova era com um motor mais eficiente desde o primeiro GP.

A resposta oficial da FIA
Em comunicado enviado à imprensa, a FIA tentou reduzir a temperatura do debate, reforçando o caráter técnico do encontro:
“Como é habitual na introdução de novos regulamentos, as discussões sobre a versão 2026, envolvendo unidade de potência e chassi, seguem em andamento.
A reunião marcada para 22 de janeiro será entre especialistas técnicos. Como sempre, a FIA avalia a situação para garantir que os regulamentos sejam compreendidos e aplicados da mesma forma por todos os participantes.”
Na prática, trata-se de uma tentativa de uniformizar interpretações antes que o assunto vire um protesto formal já na abertura do campeonato, na Austrália.
Um problema que pode atravessar a temporada
O ponto mais sensível é o calendário. Como o suposto “atalho” só teria sido identificado tardiamente, qualquer mudança estrutural no regulamento dificilmente entraria em vigor antes de 2027. As alternativas discutidas passam por restringir de forma mais clara o limite de compressão em todas as condições ou, em um cenário mais radical, eliminar o teto de compressão por completo.
Enquanto isso, as equipes que se sentem prejudicadas tentam acelerar uma solução política, mirando uma definição ainda antes da pausa de verão.
A nova era da Fórmula 1 promete revolução técnica, mas começa como tantas outras: na interpretação das entrelinhas do regulamento. Para a Red Bull, que aposta tudo em um projeto próprio de motor, cada palavra conta. E antes mesmo da primeira volta em Barcelona, a disputa de 2026 já deixou claro que não será apenas na pista.
