F1: Jonathan Wheatley, o “car guy” que chega à Audi com a chave de fenda na mão

Novo chefe da Audi na Fórmula 1 revela como a paixão por carros, nascida na infância, moldou sua visão de liderança no paddock.

Há trajetórias na Fórmula 1 que parecem desenhadas para apresentações corporativas. A de Jonathan Wheatley não é uma delas. Em entrevista exclusiva concedida ao Motorsport Week, o futuro chefe da Audi na F1 deixa claro que sua ascensão não foi movida por ambição de cargo, mas por algo muito mais simples — e, ao mesmo tempo, mais profundo: carros.

“Eu sou um car guy”, resume Wheatley, sem rodeios. “Cresci no automobilismo desde bebê. Fui no GP da Inglaterra no colo da minha mãe.”

Essa frase, quase casual, ajuda a entender por que sua chegada ao comando da Audi em 2026 não segue o roteiro clássico da Fórmula 1 moderna. Wheatley não entrou no esporte sonhando em ser chefe de equipe. Entrou para trabalhar com mecânica, para entender como as coisas funcionam, para colocar a “mão na massa”, ou neste caso, a mão no carro.

Seu início na categoria, em 1991, como mecânico da Benetton, aconteceu em uma Fórmula 1 muito diferente da atual — equipes menores, estruturas mais simples e decisões muito mais humanas. Ele próprio relembra esse contraste ao olhar para o paddock atual.

“Quando entrei na F1, a equipe inteira tinha cerca de 100 pessoas. Hoje, um pit stop envolve mais gente do que isso. Era um esporte completamente diferente.”

Foi nesse ambiente que Wheatley absorveu um conceito que se tornaria central em sua carreira: a força do coletivo. Na Benetton, segundo ele, não havia espaço para egos desmedidos. O desempenho vinha da soma.

“Uma das coisas que fazíamos muito bem era acreditar na filosofia de equipe. Aprendi cedo que um grupo forte sempre vence o indivíduo isolado”, afirmou na entrevista.

(L to R): Laurent Mekies (FRA) Red Bull Racing Team Principal and CEO and Jonathan Wheatley (GBR) Sauber Team Principal in the FIA Press Conference.
Foto: XPB Images

Essa mentalidade o acompanhou ao longo de mais de uma década na Red Bull, onde atuou como diretor esportivo em um dos períodos mais dominantes da história recente da Fórmula 1. Ainda assim, Wheatley nunca se enxergou como alguém destinado a ocupar o cargo máximo de uma equipe.

“Se eu tivesse planejado ser chefe de equipe desde o começo, essa teria sido a carreira menos eficiente do mundo. Levei 34 anos para chegar aqui”, brincou.

O caminho, segundo ele, foi natural — impulsionado mais pelo prazer de trabalhar do que pela busca por status. “Nunca fui extremamente motivado por cargos. Sempre gostei de estar em um time, resolver problemas, melhorar processos.”

Essa filosofia aparece também fora das pistas. Wheatley fala com entusiasmo sobre seus carros clássicos, que restaura e dirige pessoalmente. Um Porsche 911 da mesma data de seu nascimento, um Audi Quattro original, usados no dia a dia — inclusive no inverno.

“Esses carros exigem atenção. Cada troca de marcha pode te punir se você errar. É um retorno ao básico. Isso limpa a cabeça”, explicou. “Gosto de pegar algo antigo e torná-lo melhor, mais seguro, usando um pouco de tecnologia moderna. Acho que isso diz muito sobre como eu penso.”

É difícil não enxergar um paralelo direto entre essa visão e o desafio que a Audi enfrentará a partir de 2026. Um projeto que nasce do zero, em meio à maior revolução técnica da Fórmula 1, exige mais do que discurso executivo. Exige compreensão de processo, paciência e sensibilidade.

Wheatley sabe disso. E sabe também que sua força não está em centralizar decisões.

“Essa ideia de um único líder que decide tudo é algo com que eu sempre lutei contra. Eu dependo do coletivo. Se houver uma decisão final, eu tomo. Mas ela nasce do grupo.”

Ao assumir a Audi, ele não promete títulos imediatos nem revoluções retóricas. O que oferece é algo mais raro no paddock atual: coerência entre formação, discurso e prática.

Jonathan Wheatley não chegou à Fórmula 1 para ser chefe. Chegou para trabalhar com carros. E talvez seja exatamente por isso que agora esteja pronto para liderar um dos projetos mais ambiciosos da próxima era da categoria.

F1: Jonathan Wheatley, o “car guy” que chega à Audi com a chave de fenda na mão
Foto: XPB Images

Relação com Gabriel Bortoleto

Nesse contexto de reconstrução e identidade, o nome de Gabriel Bortoleto surge como um símbolo importante da nova fase do projeto. A visão de Wheatley sobre a Fórmula 1 — baseada em formação, mérito e compreensão profunda do processo — dialoga diretamente com o perfil do brasileiro. Bortoleto chegou à Fórmula 1 como um piloto moldado em categorias de base altamente competitivas, com leitura técnica apurada e capacidade de evolução constante, características que se alinham com a filosofia de equipe que Wheatley defende desde os tempos de Benetton.

Em um projeto que nasce pensando no médio e longo prazo, a presença de um piloto jovem, disciplinado e em curva ascendente não é apenas estratégica: é estrutural.



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