F1 2026: uma Fórmula E com esteroides?

Verstappen e Alonso lideram críticas ao impacto do novo regulamento na forma de pilotar

Terminou nesta sexta-feira (13) a primeira semana de pré-temporada da Fórmula 1 no Bahrein. Três dias de testes que, como sempre, trouxeram quilometragem, ajustes e alguns problemas de confiabilidade — algo esperado em um ciclo regulatório completamente novo. Mas, ao contrário de outras pré-temporadas, o principal saldo não parece estar nos números da tabela de tempos. Está nas declarações.

O que realmente chamou atenção foram as críticas públicas dos pilotos ao novo conceito técnico da Fórmula 1.

A temporada 2026 marca a maior transformação técnica da história recente da categoria. O novo regulamento introduziu uma divisão praticamente equilibrada entre combustão e energia elétrica – 50% para cada lado — além de mudanças profundas em aerodinâmica, dimensões e filosofia de uso de energia. A promessa era de inovação, eficiência e sustentabilidade. A reação, pelo menos nessa primeira semana, foi de desconforto.

Fernando Alonso foi direto ao ponto. O espanhol afirmou que os carros “bons” eram os dos anos 90 e 2000 e ironizou que até um chef de cozinha conseguiria fazer a curva 12 do Bahrein com o atual nível de assistência e previsibilidade. A crítica não é apenas nostálgica, ela é conceitual. Alonso sugere que o desafio deixou de estar na pilotagem pura.

Max Verstappen seguiu linha semelhante, mas com outra abordagem. O holandês afirmou que agora não se trata mais de pilotar no limite, e sim de gerenciar energia. Em uma frase forte, comparou a nova geração de carros a “uma Fórmula E com esteroides”. A provocação evidencia o incômodo com o peso estratégico do gerenciamento elétrico.

Max Verstappen (NLD) Red Bull Racing RB22.
Foto: XPB Images

E é aí que está o centro da discussão

O antigo ERS, que já fazia parte da F1 desde 2014, sempre exigiu administração. Mas agora a eletrificação ganhou protagonismo absoluto. O piloto precisa regenerar muito mais energia por volta, controlar fases de aceleração e desaceleração com precisão quase matemática e utilizar os modos de ultrapassagem sabendo que a energia extra consumida precisará ser reposta no giro seguinte.

O “lift and coast” — técnica de tirar o pé antes da frenagem para economizar e regenerar energia, passou a ser ferramenta quase constante. A ultrapassagem depende menos de ousadia e mais de cálculo energético. O botão de ataque virou um recurso estratégico que altera completamente o ritmo da volta seguinte.

A pergunta que emerge após essa primeira semana não é sobre quem foi o mais rápido. É sobre que tipo de Fórmula 1 está nascendo.

Ainda é cedo para conclusões definitivas. Toda mudança gera resistência, e os pilotos sempre foram naturalmente conservadores quando se trata da essência da pilotagem. Mas o fato de que múltiplos campeões e líderes do grid estejam vocalizando desconforto já indica que o impacto da nova era pode ser mais profundo do que se imaginava.

Se confiabilidade e performance tendem a evoluir com o tempo, a sensação dos pilotos é algo mais difícil de recalibrar. E talvez o grande saldo desses três dias no Bahrein não esteja nos dados de telemetria, mas no sentimento claro de que, para muitos dentro do cockpit, a Fórmula 1 mudou e mudou muito. E não para melhor.

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