Novo regulamento muda motor, carro e filosofia da categoria e marca a maior virada técnica da história recente da Fórmula 1
A temporada 2026 inaugura uma nova era na Fórmula 1. Mais do que uma simples atualização técnica, o regulamento que entra em vigor representa uma redefinição completa do conceito do carro, do papel do piloto e da própria identidade da categoria. Eletrificação, sustentabilidade e eficiência deixam de ser discurso e passam a ditar o projeto do esporte.
Nunca tantas áreas do carro foram alteradas de uma só vez. Motor, chassi, aerodinâmica e estratégia passam por transformações profundas — com impactos diretos na forma de pilotar, de ultrapassar e de competir.
A virada começa pelo coração do carro: o motor
A mudança mais radical está na unidade de potência. Pela primeira vez na história da Fórmula 1, a divisão de potência entre motor a combustão e sistema elétrico será equilibrada. Se até 2025 cerca de 80% da força vinha do motor térmico e apenas 20% da parte elétrica, a partir de 2026 essa proporção passa a ser de 50% para cada lado.
Na prática, o motor a combustão será significativamente menos potente. Ele passará a entregar cerca de 400 kW, contra algo entre 550 e 560 kW atualmente. Essa perda, no entanto, será totalmente compensada pelo sistema elétrico, que salta de 120 kW para até 350 kW.
Outro ponto-chave é o combustível. Todos os carros passarão a utilizar combustíveis 100% sustentáveis, encerrando definitivamente a era dos combustíveis fósseis na categoria.

Fim do MGU-H e um sistema elétrico mais simples — e mais poderoso
Um dos símbolos da era híbrida chega ao fim: o MGU-H, sistema que recuperava energia dos gases do escapamento, será eliminado. Complexo, caro e difícil de replicar fora da Fórmula 1, ele foi retirado do regulamento para simplificar as unidades de potência e reduzir custos.
Com isso, o MGU-K passa a ser o único sistema de recuperação de energia. Mas não apenas permanece — ele evolui drasticamente. A quantidade de energia recuperável por volta sobe de 4 megajoules para 8,5 megajoules, principalmente durante as frenagens.
Na prática, isso significa que os pilotos terão muito mais potência elétrica disponível durante um stint, tornando a gestão de energia um dos fatores mais decisivos da corrida.
Carros menores, mais leves e mais ágeis
O chassi também passa por uma reformulação completa. Os carros de 2026 serão 30 kg mais leves, com peso mínimo fixado em 768 kg. Além disso, eles ficam fisicamente menores.
O entre-eixos máximo será reduzido em 200 mm, passando para 3.400 mm, enquanto a largura total cai em 100 mm, para 1.900 mm. A intenção é clara: carros mais ágeis, mais responsivos e menos dependentes de soluções aerodinâmicas extremas.
Essa mudança responde a uma crítica antiga da categoria: carros grandes demais, difíceis de seguir e ainda mais difíceis de ultrapassar.
Adeus DRS, olá aerodinâmica ativa
Talvez a mudança mais visível para o público esteja na aerodinâmica. O DRS, como conhecemos hoje, desaparece. Em seu lugar entra um sistema de aerodinâmica ativa, com asas dianteira e traseira capazes de alterar seus ângulos dinamicamente.
O carro passará a operar em dois modos principais:
– Modo curva, com mais carga aerodinâmica
– Modo reta, com menor arrasto
Esse sistema dará origem ao chamado “modo de ultrapassagem”, que poderá ser acionado por pilotos que estejam a até um segundo do carro à frente. Diferente do DRS atual, o uso será mais estratégico: a energia extra pode ser descarregada de uma só vez ou distribuída ao longo da volta.
A ideia é tornar as ultrapassagens menos artificiais e mais dependentes da leitura de corrida, da gestão de energia e da habilidade do piloto.

Sustentabilidade deixa de ser promessa e vira regra
O regulamento de 2026 também é peça central no compromisso da Fórmula 1 de se tornar carbono neutra até 2030, sob supervisão da FIA.
Além do uso exclusivo de combustíveis sustentáveis, o limite de combustível por corrida cai de 100 kg para 70 kg, forçando equipes e pilotos a buscarem eficiência máxima, tanto no motor quanto na condução.
Menos combustível, mais energia elétrica e carros mais leves apontam para uma Fórmula 1 mais limpa — sem abrir mão da performance.
Uma nova Fórmula 1 nasce em 2026
O regulamento de 2026 não é apenas técnico. Ele é filosófico. A Fórmula 1 se reposiciona como laboratório de tecnologia relevante para a indústria automotiva, ao mesmo tempo em que tenta corrigir problemas históricos de espetáculo e ultrapassagens.
Quem acertar esse novo pacote desde o início pode abrir uma era. Quem errar, corre o risco de ficar anos tentando recuperar terreno.
No paddock, a sensação é clara: 2026 não será apenas uma nova temporada. Será um novo jogo.
