Quais são os empecilhos para o sucesso de um piloto na Fórmula 1? Um carro ruim, uma mente abalada, um erro estúpido, uma equipe que erra estratégias, um freio ruim na corrida de casa… Charles Leclerc passou por todas essas situações. Depois de tantos anos em Maranello, talvez a pergunta mais difícil seja: até onde o monegasco é vítima dos erros da Ferrari?
Leclerc tem uma história digna de cinema: mentiu para o pai, em seu leito de morte, que já estava assinado com a equipe de Maranello. Mas ainda era apenas um jovem piloto reserva na Haas, que ainda precisaria ficar um ano na Sauber antes de finalmente conseguir seu tão sonhado contrato com a Ferrari, ao lado do tetracampeão Sebastian Vettel.
Sua primeira atuação emblemática aconteceu logo em sua segunda corrida pela equipe italiana. No GP do Bahrein de 2019, Leclerc largou na pole position e brigou pela vitória. Mas, nas últimas voltas, teve um problema de motor. O monegasco não desistiu e levou o carro até a bandeirada final, conquistando o terceiro lugar. Ali, nascia um relacionamento histórico com os fãs da Ferrari.
Desde aquele momento, Leclerc passou a ser visto como um piloto insistente. Foi para o embate com Vettel, teve uma disputa épica com Max Verstappen na Áustria, revivendo uma rivalidade dos tempos de kart, e finalmente alcançou sua primeira vitória no GP da Bélgica, logo após a morte trágica de Anthoine Hubert na Fórmula 2. Na corrida seguinte, em Monza, venceu novamente e levou a torcida italiana à loucura. Mais um capítulo digno de grandes biografias.

O piloto parecia caminhar para o título. O enredo já estava pronto. Mas em 2020 a Ferrari fez uma de suas piores campanhas de sua história e Leclerc passou a ter que lutar por pódios. Em 2021, também foi discreto. A grande chance viria em 2022: o carro estava melhor e seu novo companheiro de equipe, Carlos Sainz, não era visto como grande ameaça.
Mas o cenário positivo não se confirmou. O monegasco protagonizou um dos piores momentos do ano ao cometer um erro no GP da França. O grito no rádio e o desespero do piloto levaram o público a criar empatia. Erros acontecem, mas ainda existia um campeonato. A comoção pelo episódio não foi suficiente e Leclerc terminou o campeonato na vice-liderança, com mais de 100 pontos de desvantagem para Verstappen. Após esse episódio, o monegasco não voltou a ter uma chance real de disputar o título na F1.
O problema se estabelece com a chegada de Lewis Hamilton na equipe. A Ferrari está acostumada a ter grandes nomes. O próprio Leclerc já dividiu espaço com um tetracampeão mundial. Mas o monegasco se viu afetado pelo impacto de dividir o cockpit com o britânico.
Logo após o anúncio de que Hamilton iria para a equipe italiana, Leclerc mudou de postura dentro e fora de pista. Ele já era um “queridinho” da mídia, mas passou a estampar cada vez mais campanhas publicitárias e expor cada vez mais a vida pessoal. Levou seu cachorro simpático, Leo, para o paddock. Além da agora esposa, Alexandra, que virou um verdadeiro fenômeno nas redes sociais. Não existe nenhum problema em ser midiático, faz parte do jogo da Fórmula 1, também jogado por Hamilton.

Em seu primeiro ano no time, Hamilton enfrentou muitas dificuldades com o carro. Porém, mesmo com todos os problemas, que não eram tão evidentes na pilotagem de Leclerc e fizeram o britânico terminar o campeonato 86 pontos atrás do companheiro de equipe, a impressão deixada era de que, enquanto Hamilton evoluía ao longo da temporada, Leclerc parecia estagnado.
E assim se implantou a dúvida: quem será o futuro da Ferrari? Hamilton, que está com 41 anos e achou seu caminho pela Ferrari em 2025, saindo das corridas animado após pódios e finalmente voltando aos ares de campeão? Ou Leclerc que, aos 28, é o rosto da Ferrari, o predestinado? A resposta, ainda que temporária, pode ter sido esclarecida no GP de Mônaco do último domingo, 7 de junho.
Leclerc tinha o carro, o público e até mesmo a pista de casa a seu favor. Ele já vinha reclamando dos freios do SF-26 desde o Canadá. Mas ainda assim, estava com o carro na mão. Porém, ficou atrás de Hamilton na classificação, um sinal de alerta. Na corrida, se recuperou e vinha para o pódio.
Porém, uma batida e uma fala no rádio resumiram o fim de semana do monegasco. Assim que bateu, já na reta final da prova em Monte Carlo, o monegasco disse que não iria assumir a culpa pelo incidente. Uma postura nova para um piloto que sempre colocou a culpa em si. Reclamou dos freios, foi filmado discutindo com a equipe — nada de errado nisso. Mas acabou reforçando questionamentos sobre sua postura.

Logo foi rebatido pela fornecedora de pneus, parceira histórica da Ferrari, em uma extensa nota. A resposta ampliou a repercussão do episódio e alimentou interpretações de que Leclerc estaria adotando uma postura excessivamente defensiva diante da situação.
Entretanto, todo esse cenário fica ainda mais dramático por ter acontecido logo após o anúncio de uma extensão contratual de múltiplos anos entre o monegasco e a equipe. O futuro imediato da Ferrari está no piloto que conseguiu se ajustar e está na vice-liderança do campeonato ou no piloto que sempre reclama e transita entre ser vítima e herói?
Desta vez a culpa pode realmente ter sido dos freios. Mas quantas vezes Leclerc se colocou fora da posição de vítima? Até mesmo quando assumia a culpa, o monegasco se colocava em um papel de azarado, injustiçado pelas circunstâncias. Como esquecer o “Eu sou estúpido” no rádio? Ou a fama de “azarado” que o piloto tem na Curva do Castelo de Baku? Ou os imperdoáveis erros de Interlagos, onde o piloto parece ter uma sina – ou seria só falta de mudança de mentalidade?
Leclerc tem tudo a seu favor para se tornar imortal pela Ferrari: o público, a fama, a postura de um piloto que ama guiar pela equipe de Maranello. Mas falta transformar a sua autocrítica em atitudes reais dentro da pista e da equipe. Só assim ele poderá se tornar um grande campeão mundial. Se até mesmo Lando Norris conseguiu assumir essa postura no final de 2025, o que falta para o monegasco?
Destaques do GP de Mônaco

Tirando o foco de Leclerc, o grande destaque de Mônaco foi Kimi Antonelli. O piloto conquistou sua quinta vitória seguida e se firmou ainda mais na liderança do campeonato. Hamilton também teve uma atuação impecável nas ruas do Principado. O pódio de Isack Hadjar tem seu mérito, mas não é uma grande conquista do francês, muito beneficiado pelas punições ao longo da prova.
Outro destaque muito positivo foi Fernando Alonso. O espanhol também foi beneficiado pelas punições, mas precisou de um esforço hercúleo para garantir que a situação fosse favorável para a Aston Martin, que conquistou seu primeiro ponto na temporada.
O ponto negativo foi a Audi, que vinha bem ao longo de todo o fim de semana, mas ficou fora dos pontos com seus dois pilotos. O desempenho só não foi mais negativo do que o de George Russell, que deixou Monte Carlo sem pontuar e está, aos poucos, ficando esquecido no campeonato em que deveria ser um dos protagonistas.
