Por Giovanni Romão
> Em nova manobra da Ferrari: Massa decide assumir a culpa; Alonso adota discurso “puritano”; e esporte vive novo domingo de “luto”.
Há diferenças entre o ocorrido no GP da Áustria em 2002 e no GP da Alemanha em 2010? Os personagens não são mais os mesmos de oito anos atrás. A definição da ordem aconteceu quando ainda faltavam 18 voltas para o final – em A1 Ring foi na reta final. No entanto, a essência de tudo não muda: a Ferrari “burlou” as regras básicas do esporte ao manipular o resultado – tirando de Felipe Massa sua primeira vitória no ano e entregando o troféu para Fernando Alonso.
A essência pode não mudar, mas as consequências, caso seja da vontade do Conselho de Esporte a Motor da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), podem ser bastante diferentes. Quando Rubens Barrichello deixou Michael Schumacher vencer a prova na Áustria em 2002 não havia no regulamento esportivo da entidade máxima do automobilismo um artigo que colocasse um limite às atitudes antidesportiva.
Porém, após aquele fato – que acabou “apenas” em uma multa milionária para a Ferrari -, as coisas mudaram.
Mudaram no papel. Na prática, veremos…
Passou a vigorar no regulamento após o ocorrido em 2002 o artigo 39.1, que aponta explicitamente: “Ordens de times que interfiram no resultado de uma corrida são proibidas”. E esse foi um dos pontos no qual se apoiaram os comissários do GP da Alemanha para aplicarem uma multa de US$ 100 mil ao time italiano neste dia 25 de julho.
Vamos aos fatos ocorridos em Hockenheim.
Largando na segunda colocação, Fernando Alonso forçou para cima do pole-position Sebastian Vettel na largada. Espremido, o espanhol ficou sem espaço, enquanto Felipe Massa aproveitou para pular de terceiro para a ponta, aproveitando-se também do lado limpo da pista.
Ocorreram as paradas de pit stop e nada fez a Ferrari para inverter as posições, e tudo continuou como estava, com Massa na ponta e Alonso em segundo. Então, no 47° giro, o engenheiro de corrida do brasileiro, Rob Smedley, chamou Massa pelo rádio e disse – pausadamente: “Alonso é mais rápido do que você. Você pode confirmar que entendeu esta mensagem?!”
Na volta seguinte, na saída hairpin – como mostrou claramente a telemetria – Massa aliviou o pé do acelerador, e Alonso fez a ultrapassagem. Após a troca de posições, Smedley chamou novamente o brasileiro no rádio para resumir: “Obrigado. Mantenha-se com ele (Alonso).” E fechou com uma palavra enfática: “Desculpa!”
Além de violar o artigo 39.1 com a manobra, a Ferrari ainda atingiu o artigo 151c, que trata de decisões fraudulentas e ferem a imagem do esporte. Após a prova, a Ferrari foi duramente criticada. O tricampeão mundial Niki Lauda resumiu em uma palavra: “Vergonha!”
O chefe da equipe Red Bull, Christian Horner, cobrou atitude: “O regulamento é claro e ordens de equipes não são permitidas.”
A decisão tomada neste domingo foi a de grau máximo que cabe aos comissários de um GP. Porém, por ter sido considerada uma situação grave, o caso foi encaminhado ao Conselho Mundial. Diferentemente do ocorrido em 2002, existem parâmetros claros para punições mais severas. A data da reunião extraordinária ainda não foi agendada.
Assim como vez nos últimos dois escândalos em que esteve indiretamente envolvido – roubo de informações da McLaren, em 2007, e o acidente articulado pela Renault com Nelsinho Piquet, em 2008 – Alonso adota discurso “puritano”: “Não sei o que ocorreu, vi que tinha mais espaço e acelerei. Somente havia oportunidade na curva.”
Aos comissários, Massa assumiu a responsabilidade de ter deixado o espanhol passar. Tentou aliviar para o time: “Tomei a decisão de deixar o Fernando passar porque era o melhor pelo time. Se não tivesse sido uma decisão minha ele não passaria.”
Após a decisão dos comissários, a Ferrari tenta diminuir a importância do assunto e mostra-se “parceira” da FIA. “Decidimos não apelar pensando no interesse do esporte. Estamos confiantes de que o Conselho Mundial avaliará os fatos de forma correta”, acredita Stafani Domenicali, chefe do time.
Para a Ferrari não seria nada bom se o Conselho julgasse o fato de “forma correta”.
Para o bem da F1, seria bom se Domenicali pensasse no interesse do esporte nas atitudes dentro da pista.
