Quinta-feira, 29 de setembro de 2005. Circuito de Jerez de la Frontera, na Espanha. Um dia e um momento histórico para um brasileiro. “Passou um flashback da minha carreira, da minha mãe, do meu pai e eu repetia seguidamente a frase ‘Eu consegui!’”, essas foram as primeiras palavras de Kanaan ao deixar o cockpit da equipe BAR/Honda, nesta quinta-feira, após um dia inteiro de testes na Espanha. “Eu lembro como se fosse hoje, eu e o pai dele na sala de casa e o Tony tinha uns 8 ou 9 anos. O pai dele perguntou o que ele gostaria de ser, e a resposta do Tony foi tão segura, que até me assustei. Ele disse somente ‘Fórmula 1 papai’ e repetiu umas 3 vezes”, relembra sua mãe, Miriam Kanaan.
Na veloz e difícil pista de Jerez, Kanaan completou apenas 50 voltas, das 100 que tinha direito, devido alguns problemas elétricos típicos de testes. A melhor delas foi cravada em 1m19s114. O seu companheiro no treino e piloto oficial de testes da BAR, Anthony Davidson, fez 1m17s535 em 93 voltas completadas. “Levando em consideração que foi a primeira vez que corri em Jerez, e a primeira vez que entro num F1, os tempos foram bons. Eu, particularmente, estou extremamente satisfeito com meu desempenho. É uma pena que não posso ir para a pista na sexta, pois a BAR dará oportunidade ao programa de jovens talentos. Eu acredito que mais um dia de teste, eu viraria na mesma casa que o Davidson virou hoje. Mas, volto a dizes, estou imensamente feliz pelo trabalho que realizei hoje. Nós sabemos que os japoneses são bem reservados e não costumam dizer muito sobre o que acharam, mas eu acho que eles estão satisfeitos”, disse o campeão da Fórmula Indy 2004.
Kanaan também falou sobre as principais diferenças entre os monopostos da Indy e da própria F1. “Isso aqui é um absurdo!”, afirmou empolgado. “Quando eu troquei de 3a marcha para 4a, meu capacete grudou lá atrás. Quando eu pisei no freio, parecia que ia enfiar a cara no volante (risos)”, enfatizou sobre a aceleração e a frenagem do modelo 007, usado nesta temporada 2005 por Jenson Button e Takuma Sato. Outra diferença grande que o baiano detectou, é em relação aos pneus. “Na Indy, a primeira volta com pneus novos é ótima, a segunda boa, a terceira ok e vai caindo aos poucos. Aqui, a primeira é perfeita, mas já na segunda volta, a diferença é brutal. Isso eu tive um pouco de dificuldades para me adaptar”, explicou Kanaan que tinha 9 jogos de pneus novos, mas acabou usando somente 4. Quanto a velocidade, para quem anda numa média de 360km/h durante 2 horas, não foi novidade. “Na primeira volta, os engenheiros disseram para eu não fazer a parte alta com aceleração total. Mas já na terceira volta, eu estava pisando 100%”, afirmou Kanaan, sorrindo. Finalizando as diferenças dos carros, Kanaan achou que o carro que será pilotado por seu amigo, Rubens Barrichello, em 2006, tem uma tecnologia completamente diferente. “A tecnologia é muito diferente da Indy, e os recursos são bem maiores”, especificou o brasileiro.
Desde 1998, Kanaan só não correu com motores Honda no ano 2000, e a relação entre eles já é uma marca característica. “Conhecendo de perto a estrutura que a Honda tem na F1, eu fiquei mais entusiasmado com a temporada 2006 na Indy. Hoje, os engenheiros da F1 estão sempre em harmonia com os da Indy e conversamos muito sobre isso”, explicou o piloto da equipe Andretti Green, também equipada pelos propulsores japoneses. O brasileiro também agradeceu a montadora pela oportunidade de realizar esse sonho. “Não tenho nem palavras para agradecer a Honda. Não é de hoje que eles fazem parte da minha carreira, e não poderia ser diferente” disse o baiano, que conquistou o título de 2004, na Fórmula Indy, completando todas as 3.305 voltas da temporada, um feito exaltado pela Honda.
Após ser questionado, sobre o que sentia naquele exato momento, Kanaan finalizou assim. “É uma sensação fantástica de realização. Uma pena que não tem mais circuitos mistos nessa temporada da Indy, pois ninguém iria me segurar (risos)”, concluiu Kanaan.