Aos poucos, Lucas Di Grassi vai se envolvendo cada vez mais com o sonho de todo piloto: a Fórmula 1. Depois de ter sido escolhido, em 2004, para integrar o programa da Renault de apoio a jovens talentos e de ter seu contrato renovado no início de 2005, o paulista de 21 anos finalmente sentiu o gostinho de acelerar um carro da categoria máxima, nesta quinta-feira, em Jerez de la Frontera (Espanha). E foi justamente o bólido que, no fim de semana anterior, no GP do Brasil, conquistou com o espanhol Fernando Alonso o título de campeão mundial para a fábrica francesa.
Qual a emoção que, como jovem aspirante, Di Grassi sentiu neste momento? “Para ser sincero, nenhuma”, surpreende Lucas, ao responder a esta pergunta tão comum nestas ocasiões. “Eu venho me preparando para este primeiro teste há muito tempo. Nesta hora, não há espaço para sentimentalismo. Então, encarei aquela máquina maravilhosa como se fosse um carro de corridas qualquer. Não liguei para nada, encarei tudo como se fosse uma rotina, quando na verdade era algo bem especial. Mas tinha que ser assim; eu não poderia me permitir distrações justamente na hora em que todo mundo na equipe dos meus sonhos estava de olho em mim”.
O planejamento feito pela Renault para o teste previa para Lucas apenas a avaliação de novidades que podem ser utilizadas no futuro. Por isso, o brasileiro não andou forte no circuito espanhol de Jerez de la Frontera. “Ao todo, dei apenas 51 voltas durante o dia inteiro”, conta Di Grassi. “A principal orientação dada pelos engenheiros era simples: não bata esse carro de jeito nenhum. Eles frisaram isso porque teríamos que testar várias peças e não havia tempo a perder com reparos. Por isso, o ritmo do teste foi truncado: eu saía para a pista, dava duas ou três voltas, e retornava para o box, onde eles verificavam componentes do carro e conectavam computadores para a aquisição de dados”.
Devido aos testes específicos, Di Grassi andou sempre com tanque cheio de combustível e utilizou um mapeamento de motor (espécie de programação previamente estabelecida) que propositalmente não permite atingir os limites do Renault R25. No fim do dia, Lucas teve uma reunião de duas horas com os engenheiros, na qual passou suas impressões sobre o comportamento do carro em cada configuração utilizada. Neste encontro de avaliação, o jovem piloto de 21 anos foi extensamente elogiado pelo seu primeiro dia de trabalho com um carro de Fórmula 1, especialmente em relação à qualidade das informações que foi capaz de transmitir, algo mais comum a pilotos com bastante experiência:
“Eles me perguntaram se eu tinha ficado enjoado ou com dor no pescoço, coisas comuns para estreantes devido à força G”, conta Lucas. “Como eu disse que não sentira nada, eles disseram que o RDD (sigla de Renault Driver Development Program, ou Programa de Desenvolvimento de Pilotos da Renault) está valendo a pena. Quando há tempo, eu chego a fazer cinco ou seis horas diárias de exercícios. Como disse, estou me preparando para valer para este dia a muito tempo”.
Di Grassi deve testar outra vez o Renault R25 nesta sexta-feira. Novamente, será um teste de avaliação de novos equipamentos: “O dia de hoje foi muito proveitoso. E, apesar de ter procurado me manter de cabeça fria, estou realmente muito feliz. Não é todo dia que se pode acelerar o carro do campeão mundial”, repara Di Grassi. “Nesta sexta-feira nosso foco também será a resistência do equipamento, sem preocupação em estabelecer tempos muito velozes. A velocidade será, novamente, uma tarefa para o Montagny (Franck Montagny, piloto de testes oficial da Renault), que tem uma larga experiência com este carro. Os testes dele visam o próximo GP, a ser disputado no Japão, dia nove de outubro”.