Os caminhões e as tendas que servem de acomodação às equipes da Fórmula GP2 no Autódromo Enzo e Dino Ferrari estão situados a pouco mais de 100 metros do paddock da Fórmula 1. É, no entanto, como se as duas categorias estivessem separadas por um abismo de milhares de quilômetros. Na credencial dos pilotos da Fórmula GP2, criada para suceder a Fórmula 3000 a partir deste ano, a advertência é clara: o passe não dá acesso à vizinhança ilustre. Uma catraca eletrônica, com vigilância permanente do estafe do GP de San Marino, desestimula visitantes indesejados.
“É frustrante saber que a gente está tão próximo deles e não pode passar para o outro lado, mas o que se pode fazer?”, conforma-se Xandinho Negrão, que nem tentou apelar para o mundialmente famoso “jeitinho brasileiro”. Quando já estava acostumado com a idéia de só ficar de antena ligada no som dos motores, salvou-o Felipe Massa, que apareceu com uma credencial de convidado da Sauber. “Mas é só para hoje, hein?”, avisou o amigo, que deve recepcionar a família no fim de semana, já que na segunda-feira completa 24 anos.
Do episódio, Xandinho acabou tirando uma lição. “É bom mesmo eu ir entendendo que ninguém vai facilitar a minha vida. Se eu quiser alcançar a Fórmula 1, vou ter de chegar por meus próprios méritos. Só assim é que vou poder passar por aquela catraca sem depender de ninguém.” Xandinho não tem pressa: com um plano de carreira consciente, pretende passar pelo menos dois anos na Fórmula GP2 antes de atingir o seu grande sonho.
É um sonho, aliás, comum aos 24 pilotos do grid, embora alguns deles já saibam muito bem que mais difícil que chegar pode ser se manter na Fórmula 1, como aconteceu com os italianos Giorgio Pântano, que passou pela Jordan, e Gianmaria Bruni, ex-Minardi. Correndo atrás de nova oportunidade, contribuem para elevar o nível de qualidade do campeonato. “Nunca vi uma categoria com tantos bons pilotos”, elogia Felipe Vargas, chefe da equipe de Xandinho e Nelsinho Piquet. Ele aponta o finlandês Heikki Kovalainen, da Arden, como o provável favorito. “Ele é muito bom, embora não tenha ido muito bem na pré-temporada.”. A surpresa foi o norte-americano Scott Speed, que foi o mais rápido nos treinos que definiram a numeração dos carros. “Ninguém esperava vê-lo com o número 1.” Vargas aposta que Nelsinho será uma presença constante entre os cinco primeiros e que Xandinho vai evoluir bastante ao longo das 23 provas do calendário.