|
Chegamos a Watkins Glen para a
decisão de um dos campeonatos mais equilibrados e com chegadas emocionantes
de todos os tempos. Aliás, uma bela despedida para o tradicional circuito
próximo à Nova Iorque, que sairá do calendário na próxima temporada para dar
lugar ao circuito de rua de Las Vegas.
Porém, nos treinos, as Williams não conseguiram andar no mesmo ritmo de
Ferrari e Renault. Mais uma vez, David Groenwold marcou a pole-position,
sendo o mais novo “rei da pole”. Foi a sua terceira pole consecutiva e a
quarta na temporada. Ao seu lado, na primeira fila, garantiu-se Hilton Malta
com a Renault, mostrando que o português pode dar trabalho na temporada que
vem com o carro da equipe francesa e lutar pelo seu terceiro título. Na
segunda fila, a outra Ferrari de Mateus Monteiro, tentando recuperar-se do
fiasco do Canadá, enquanto Henrich Swarz, tentando apagar a má impressão que
deixou na temporada, conseguiu o quarto posto. Na terceira fila, Rodrigo
Nascimento marcou o quinto tempo, saindo em vantagem sobre Eduardo Alencar,
que ficou apenas com a oitava marca, mostrando certo nervosismo com a
decisão do título. Em sexto, Rodrigo Maineri conseguiu, mais uma vez, ser
mais rápido do que James Creed, a grande decepção do treino, ficando apenas
com o 11º tempo. Também conseguiram um bom desempenho no treino Michael
Raballand, conquistando o sétimo posto com a Fittipaldi, e Ysmail Storck,
levando a McLaren, pela primeira vez na temporada, aos dez primeiros.
Eis o grid de largada:
1º Groenwold
2º Malta
3º Monteiro
4º Swarz
5º Nascimento
6º R.Maineri
7º Raballand
8º Alencar
9º Dux
10º Storck
11º Creed
12º Borges
13º Leite
14º Nigritz
15º Hamilton
16º Smart
17º Alvarez
18º de Cesaris
19º Parucci
20º Rodriguez
21º Thornton
22º Rocha
23º Olivier
24º Azevedo
25º Doohan
26º Lima
Na largada, as Williams foram um show a parte. Nascimento pulou da quinta
para a segunda colocação, ficando atrás apenas de Groenwold, que manteve a
ponta, enquanto Alencar fechou a primeira curva em quinto, tendo Malta em
terceiro e Mateus Monteiro em quarto, já que Henrich Swarz fez uma péssima
largada, caindo para o décimo quinto posto. Já na sexta volta, sem querer
perder tempo, Nascimento ultrapassou o holandês da Ferrari e assumiu a
ponta. Enquanto isso, Alencar passava por Monteiro e assumia o quarto lugar.
Na décima quinta volta, o italiano da Williams aproveitou um pequeno erro de
Hilton Malta e passava para o terceiro posto. Dessa forma, só havia
Groenwold entre os dois pilotos da Williams. Com um desempenho fora do
comum, Alencar chegou em Groenwold e fez mais uma bela ultrapassagem,
assumindo a segunda posição.
Agora, iniciava o duelo interno da Williams pelo título. Inicialmente, o
escocês conseguiu manter o ritmo, fazendo a melhor volta da corrida e
abrindo certa vantagem frente ao italiano. Porém, a partir da volta de
número 35, Alencar começou a reverter o jogo e passou a tirar a vantagem.
Faltando duas voltas para o final, o italiano já estava na cola do seu
companheiro de equipe.
Iniciava assim um duelo inesquecível, com direito a fechadas e toques entre
os dois pilotos, que nem pareciam companheiros de equipe... Na última volta,
Nascimento mantinha liderança, mas na reta de chegada, Alencar fez uma
manobra arriscadíssima de ultrapassagem e, na bandeirada, a dúvida...
parecia que os dois carros tinham cruzado juntos! Empate? Uma grande
indefinição pairou sobre Watkins Glen, e os dois pilotos evitaram
comemorações, indo para os boxes.
Vinte e cinco minutos de suspense se seguiram e a cerimônia do pódio adiada,
para desespero dos diretores de televisão do mundo todo, que tiveram que
atrasar suas programações para esperarem a definição. Finalmente, o próprio
Jean-Marie Ballestre, com sua cara de poucos amigos, chegou e anunciou o
resultado da corrida: Alencar ultrapassou e venceu Nascimento com uma
inacreditável diferença de 0s002! Na hora, o escocês não aceitou o resultado
e pediu uma revisão, mas essa confirmou o resultado, fazendo com que ele não
escondesse a decepção de perder mais um título na festa do pódio. Já Eduardo
Alencar era pura alegria e festa ao estourar a champanhe e erguer a taça da
vitória. Era a prova que ele queria mostrar para aqueles que duvidavam do
seu talento. Constantemente, o italiano fazia o sinal do número 1 para as
câmeras de televisão e para os fotógrafos. Aliás, com a vitória e o título,
Alencar aumentou ainda mais sua popularidade nos Estados Unidos, algo raro
para um piloto europeu, pois além de conquistar o campeonato de maneira
espetacular na terra do Tio Sam, o italiano é bi-campeão das 500 Milhas de
Indianápolis.
Um final fantástico para uma temporada espetacular! Que 1981 reserve emoções
ainda maiores!
Notas – Pilotos:
Eduardo Alencar: Simplesmente fenomenal... surpreendeu muita
gente, calou a boca de boa parte dos comentaristas e levou a taça com todos
os méritos. Nota 10.
Rodrigo Nascimento: Também foi fantástico, disputou sem medir
consequência e palmo a palmo a liderança com Alencar, mas, foi derrotado por
menos de um nariz de diferença... Sua desilusão no pódio comoveu a platéia
norte-americana e os telespectadores de todo o mundo. Nota 10.
Rodrigo Maineri: Por pouco, o argentino não surpreendeu os
pilotos da Williams e não conseguiu vencer o GP. Tem muito potencial e, se
assinar com uma equipe de ponta ou permanecer na Ligier, poderá disputar o
título. Nota 9.
James Creed: Corrida burocrática, sem motivação e,
provavelmente, pensando na sua possível saída da Ligier. Nota 7.
Hilton Malta: Conseguiu mais um quinto lugar pela Renault e,
com toda a sua experiência, preferiu não entrar na disputa pela vitória,
para não atrapalhar a disputa do título. Nota 7.
David Groenwold: Levou novamente a Ferrari aos pontos. Enzo
Ferrari sonha em mantê-lo na equipe, mas Groenwold quer estar em uma equipe
que lhe dê condições de disputar o título do ano que vem. Nota 7.
Frank Dux: Esteve, novamente, próximo dos pontos e disputou
palmo a palmo a posição com Joel Castro. Merece estar em uma equipe
competitiva no ano que vem. Nota 8.
Joel Borges Castro: O novato brasileiro fez outra boa corrida
e começou a despertar atenção do Circo da F1. Ecclestone já está com um
contrato pronto para ele assinar,mas estará disposto a ficar preso por longo
tempo ao empresário inglês? Nota 8.
Max Rodriguez: O colombiano conseguiu com que a Lotus
melhorasse na fase final da temporada, o que já é grande coisa, se
lembrarmos do fraco desempenho do início. Nota 7.
Mateus Monteiro: Novamente não conseguiu andar no ritmo de
Groenwold. Mas, pelo menos, superou o vexame de Montreal. Nota 6.
Alex Nigritz: O jovem alemão, empresariado pelo ex-piloto e
quase homônimo Alex Niggre, destacou-se nessas corridas e já se mostra como
um piloto com potencial de se tornar um novo ídolo da categoria. Fez
milagres com a ATS!. Nota 8.
Pablo Pietro Parucci: Dessa vez, não conseguiu acompanhar o
ritmo de Rodriguez e acabou, de maneira burocrática, o campeonato. Mas, ele
promete ser mais competitivo no próximo ano. Nota 6.
Michael Raballand: Protagonizou o "duelo da turma
intermediária" com Parucci, mas,dessa vez, não brilhou como nos GPs
anteriores, mostrando que não escolheu um bom acerto para Glen. Nota 5.
Henrich Swarz: Também fez parte desse duelo intermediário,
mas, com o carro que têm, não deveria estar aí... Será que se assustou com
Malta na equipe? Nota 4.
Ysmail Storck: Andou no limite do carro. A McLaren M30,
realmente, não permite vôos mais altos. Mas, parece ter se divertido na
disputa com Swarz, Raballand e Parucci. Nota 6.
J.L.Hamilton: Dessa vez, Hamilton suou para superar Leite no
duelo particular da Arrows. Nota 5.
Gustavo Leite: Esforçou-se mais para superar Hamilton e, por
pouco, quase conseguiu. Nota 5.
Maxwell Smart: O suíço, novamente, fez uma atuação regular e
discreta. Nota 5.
Charlie Alvarez: Ano complicado para o jovem espanhol, de
grande aprendizado e dirigindo carros ruins. Nota 4.
Cole Thornton: Fez uma corrida tímida em casa... Talvez seu
pior desempenho na temporada. Nota 4.
Maurizio de Cesaris: Fim de um ano sofrível em uma equipe
totalmente desorganizada, apesar da grana que ambos têm... Mas teve uma das
melhores performances do ano, em uma pista que não gostou muito. Nota 4.
Jean-Antoine d'Olivier: Novamente, o francês só fez número.
Mas, depois de várias declarações dizendo que queria mudar-se para a CART ou
para a NASCAR, mudou o discurso e diz que está reencontrando a motivação de
correr na F1. Porém, deverá encontrar emprego apenas nas equipes do fundão.
Nota 3.
Mark Doohan: Desempenho catastrófico. Têm a seu favor o fato
de que foi atrapalhado nessa temporada pelo acidente nos testes de
Silverstone, antes da corrida no Canadá. Vamos ver se conseguirá a
recuperação na próxima temporada... Nota 2.
Rodrigo Rocha: Rocha passará na história por ter corrido no
último GP da Shadow, que nos meados da década de 1970 prometia ser uma
equipe competitiva e que termina sua trajetória de maneira melancólica... A
partir do ano que vem, se chamará Theodore e terá como proprietário o
empresário de Hong Kong Teddy Ypi. Rocha tentará uma vaga nessa equipe
rebatizada. Nota 3.
Marco Azevedo: Novamente, só fez figuração e ficou bem atrás
de Dux... Nota 2.
Jefferson Lima: O simpático argentino, mais uma vez, passeou
em um GP... Nota 2.
Os dez mais de 1980
Encerrada a temporada,
segue-se um pequeno balanço dela, através da análise dos 10 pilotos que mais
se destacaram na temporada. Aqui, não leva-se em consideração a pontuação da
temporada que, por vezes, mostra-se enganosa. Considera-se o desempenho de
cada GP, considerando o que conseguiram extrair do carro em cada corrida,
visto que, na F1, eles têm desempenhos desiguais e, dessa forma, influenciam
nos resultados das corridas. Apenas pilotos fantásticos, fenomenais, como
Phil Menezy com a March em 1975, conseguem vencer um título com um carro bem
inferior. Bom, mas, analisemos a temporada que terminou em Watkins Glen,
através desse pequeno ranking pessoal e, provavelmente, imperfeito...
1- Eduardo Alencar: Simplesmente fantástico, superou-se nas
últimas corridas, principalmente a partir do GP da Holanda. Tido
anteriormente como um piloto mediano, mostrou talento já em 1979, ao vencer
as 500 Milhas de Indianápolis. Agora, na F1, conquista seu primeiro título.
O melhor da temporada, sem dúvida.
2-Rodrigo Nascimento: Começou com tudo a temporada de 1980,
firmado no objetivo de, finalmente, conquistar seu primeiro título mundial,
depois de tantas bolas na trave. Porém, não contava com a reação de seu
companheiro de equipe, Eduardo Alencar, apesar de contar com o apoio da
equipe, britânica como ele... Enfim, mais uma vez, vice-campeão. Como prêmio
de consolação, o fato de ser o segundo piloto mais vitorioso da F1 (28
vitórias) e de se aproximar da quebra do recorde que, se continuar com
motivação, será quebrado em 1981.
3- James Creed: A Ligier não era páreo para a Williams, mas
Creed, na primeira parte da temporada, conseguiu ameaçar o domínio da
Williams. Porém, parece ter perdido o entusiasmo na segunda metade da
temporada, sendo superado até pelo seu novo companheiro de equipe, Rodrigo
Maineri, nas últimas corridas.
4- Rodrigo Maineri: Sem dúvida, a revelação da temporada.
Conseguiu somar seus primeiros pontos em um carro visivelmente inferior, a
Tyrrell e, no meio da temporada, teve a oportunidade de substituir o
acidentado Roberto Júnior na Ligier. Não decepcionou, conseguiu seus dois
primeiros pódios na América do Norte e quase venceu uma corrida. Promete dar
trabalho no ano que vem.
5- David Groenwold: Iniciou a temporada na Brabham, mas logo
se desentendeu com o "difícil" Bernie Ecclestone e preferiu seguir para a
Brabham após a polêmica da demissão de Cole Thornton. Na equipe italiana,
teve um desempenho regular, constante e acima das possibilidades do carro em
quase todos os GPs.
6- Mateus Monteiro: Monteiro está nessa posição devido a
fantástica performance no GP da Alemanha, conseguindo a única vitória da
Ferrari na temporada. Porém, quase sempre andou atrás de Groenwold e, em
algumas corridas, teve desempenho catastrófico, como foram os casos dos GPs
da Inglaterra e do Canadá. Necessita adquirir uma regularidade maior.
7- Rodrigo Ferreira: O piloto japonês iniciou a temporada com
pódio na Argentina e parecia que iria levar a Renault à sua primeira
vitória. Porém, quando chegou a fase das pistas rápidas, que beneficiam o
motor turbo francês, ele decepcionou. A derrota da Alemanha para Monteiro
foi o clímax dessa derrocada. Tanto que ele esperou chegar o fim da
temporada européia para anunciar sua aposentadoria. Será que é definitiva?
8- Hilton Malta: O campeão de 1979 esteve irreconhecível nessa
temporada. Primeiro, optou por tentar levar a Alfa Romeo às vitórias, mas
logo se arrependeu, ao perceber a desorganização da equipe. Atraído por uma
proposta milionária de Bernie Ecclestone, abandonou a equipe italiana e foi
para a Brabham. Porém, teve desempenhos apenas medianos na equipe, o que
provocou uma troca de acusações nos jornais entre ele e seu patrão. No fim
da temporada, abandonou a Brabham para correr na Renault, onde também não
conseguiu grande coisa além de motivar Ecclestone a entrar com uma ação
judicial na Justiça do Trabalho inglesa, o que poderá obrigar o português a
retornar para a equipe do matreiro empresário inglês.
9- Frank Dux: O belga estreou no meio da temporada pela
Fittipaldi e, em pouco tempo, chamou a atenção do Circo. Contratado para
substituir Maineri na Tyrrell, teve desempenhos próximos ao do argentino e
quase conseguiu chegar aos pontos. Parece ser bem promissor.
10- Alex Nigritz: Também estreou na segunda metade do
campeonato e conseguiu desempenhos surpreendentes com a fraca ATS. Parece
ter grande potencial.
Além desses dez, destaques também para o surpreendente Michael Raballand,
que fez grandes corridas com carros fracos como a Osella e a Fittipaldi, e
Cole Thornton, injustiçado com a dispensa da Brabham e que teve boas
performances com a também fraca Ensign.
|